Autoridades da República não têm mesmo compostura e respeito às pessoas e não poupam nem os casos de tragédias como o desastre de Congonhas. Para elas, tudo é razão para ironia e deboche. A frase irresponsável da ministra do Turismo, Marta Suplicy, ainda hoje repercute mal para a sua imagem de governante e para a do Governo petista, e quinta-feira mais uma cena constrangedora foi ao ar pela TV. Foi a de dois asssessores presidenciais – Marco Aurélio Garcia e Bruno Gaspar – em pleno Palácio do Planalto, fazendo gestos obscenos em sinal de alegria ante uma versão de que o acidente fora causado por falha mecânica. O gesto de um deles foi o top-top com as mãos, dirigido a quem culpa pela tragédia o Governo e seu sistema de controle aeronáutico, e o do outro, com o mesmo endereço, foi com os punhos cerrados e os braços puxando para trás, um sinal cujo sentido os leitores sabem.
  Todas as explicações posteriores, depois que a imagem foi divulgada, não conseguiram apagar o impacto desses gestos, sincronicamente usados pelos dois para comemorar um informe sobre a possibilidade de haver ocorrido um defeito mecânico no avião sinistrado. Enquanto a nação inteira está consternada pelo drama das vítimas e dos familiares, os dois assessores encaram tudo sob o prisma da disputa para encontrar-se o culpado, desde que não seja o Governo. Ao invés de pronunciamentos do próprio presidente da República admitindo a precária infra-estrutura aeroportuária e dando indicativos de solução, o que se vê – pela amostragem desses assessores – é a revelação de uma mentalidade que impera no círculo oficial ante suas próprias negligências, mesmo que isso gere infelicidades às pessoas: a da ironia, do escárnio e da sordidez.
  Já antes o ministro Guido Mantega havia dito, referindo-se ao desastre, que isto ocorre pelo desenvolvimento da economia, como a justificar o episódio pelo aumento do uso do transporte aéreo. E na sexta-feira, ainda com as chamas do avião acidentado queimando, a Aeronáutica promove uma cerimônia para condecorar com medalhas o presidente e uma diretora da Agência Nacional da Aviação Civil, uma das três instituições do sistema de infra-estrutura e controle aéreo apontadas como negligentes e dessincronizadas. Antes de tudo deve-se questionar o mérito anunciado – o dos ‘‘bons serviços prestados à aeronáutica’’ – mas fica evidenciada também a falta de tato do Governo em fazer uma homenagem desta num momento tão inoportuno. Para contrabalançar, o Governo anuncia que diminuirá o número de operações em Congonhas e também o volume de cargas. Providências que, além de tardias, são pouco ou nada solucionadoras. A questão é infra-estrutural e muito mais complexa.

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