Deboche, cinismo, afronta à lei e às instituições democráticas, caracterizam há muito tempo as ações dos chamados sem-terra. Sob as bênçãos episcopais e clericais, apoiado por partidos ditos de esquerda, o MST, ponta de lança revolucionária do PT no campo, tem se fartado em pilhar, atear fogo a plantações e pastos, matar animais, destruir maquinário, deixar rastros de destruição e marcas do seu característico terrorismo nas fazendas que invade, amedrontar funcionários, infelicitar a vida dos legítimos donos das terras esbulhadas. E o Movimento só tem aumentado a escala dos seus desmandos e de sua violência sob a complacente impunidade que campeia no País.
Há uns dez anos atrás os sem-terrra eram os coitadinhos, os excluídos do campo, as vítimas do êxodo rural, os necessitados da reforma agrária esse tema antigo e requentado que sempre povoou a retórica dos políticos e as inócuas discussões travadas no Congresso Nacional. Vítimas são sempre alvo da piedade alheia e, assim, a opinião pública simpatizava com os pobres trabalhadores rurais sem terras e sem eira nem beira.
Então eles começaram a ocupar terras. Não invadiam, ocupavam fazendas improdutivas. Era a justiça social feita pelas mãos dos próprios injustiçados Mas provavelmente o MST, desde seu início, não foi um movimento social mas sim político. Seu principal ideólogo, João Pedro Stédile, sempre escancarou a vontade sua verve revolucionária, enquanto o o incitador José Rainha fazia sucesso na mídia. Do alto de sua força, o MST acabou por mostrar sua verdadeira face, uma organização paramilitar, adestrada nas artes da guerrilha sob as orientação, inclusive, das Farcs, que invade de forma violenta fazendas produtivas em nome de ideais revolucionários. Tudo feito e justificado em nome da tomada do poder e a instauração do socialismo. Tudo sob as vistas complacentes das autoridades constituídas, que não reagiram a altura dos fatos, quem sabe por temer a opinião emitida por entidades internacionais, daquelas loucas por folclore ou aspectos bizarros do Terceiro Mundo, ou vergadas sob o peso da má consciência que o passado colonial lhes confere.
Em maio de 1999, o caráter guerrilheiro do MST se evidenciou no Curso de Capacitação de Militantes de Base do Cone Sul, promovido e ministrado pelo MST e pela Coordenadora Latino-Americana de Organizações do Campo - Cloc. O evento se deu em Sidrolândia (MS), numa aprazível chácara denominada Centro Cultural São Francisco de Assis onde vivem frades capuchinhos, e contou na abertura com a presença do governador Zeca do PT. O Curso se baseou num texto-base oficial intitulado ‘‘Lições Históricas da Luta pela Reforma Agrária no Brasil, uma espécie de manual de doutrinação para adestrar ideologicamente ‘‘agentes de transformação social’’. Vejamos algumas das idéias contidas no texto-base:
A- ‘‘Ao longo de sua trajetória, o MST organizou-se como um movimento social de massas, mas é também um movimento político, porque ao lutar pela reforma agrária no Brasil atinge diretamente os interesses da oligarquia rural e do Estado’’.
B- ‘‘O MST se empenha para que as organizações sociais e políticas de esquerda retomem o trabalho de formação de militantes, com uma nova concepção: a de que é possível implantar o socialismo’’.
C- A reforma agrária ganhou outra dimensão e já não deve ser feita por razões econômicas como no passado e, sim, por razões políticas ou, se quisermos, por razões ideológicas’’.
D-. Apenas ocupar a terra para trabalhar é uma posição superada; esta posição se esgotou na luta pela conquista da terra vivenciada pelo MST na década passada’’.
Prosseguindo a meta traçada por seus mentores, o MST passou a combinar ‘‘novas formas de luta’’. Assim, suas bandeiras vermelhas passaram a ser vistas com destaque em passeatas, manifestações contra o governo, invasões de prédios públicos, bloqueamento de estradas, saques de cargas de caminhões. Finalmente, em invasão anunciada e trombeteada por José Rainha (que se jactou de usar os mesmos métodos do bandidos do PCC), o MST cumpriu o que há muito tempo vinha ensaiando: invadiu a fazenda da família do presidente Fernando Henrique, num claro ato de achincalhe, de enxovalhamento do mais alto poder da República.
Usando a tática do inquisidor, o PT tenta transformar a vítima em algoz e lava as mãos como Pôncio Pilatos ao acusar o governo pela invasão do seu próprio patrimônio. Se alguém perguntar ao Lula sobre o MST, é capaz dele responder: ‘‘MST, o que é isto? Nunca ouvi falar’’. Lula e o PT tão pouco lembram do que o deputado federal Xico Graziano mostrou no seu artigo ‘‘Banditismo rural’’, publicado no O Estado de S. Paulo, de 27/03/2002, ou seja: o governo já desapropriou 20 milhões de hectares, o que corresponde à metade da área cultivada no País; não existem mais fazendas improdutivas para serem desapropriadas; não existem mais sem-terra.
Pensando bem, para que o PT se lembraria dessas coisas insignificantes? O que interessa é o socialismo a ser implantado no governo Lula. O que interessa é sobretudo o poder. Deste modo, bem longe dos holofotes da campanha, luminares e militantes do PT devem estar dando vivas ao deboche, ao cinismo a afronta da sua cria ideológica que devia mudar de nome, de MST para Movimento dos Com-Terra - MCT. E as invasões continuam, companheiros!
MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária.

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