De volta o sonho do lago - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de setembro de 1998
Walmor Maccarini 
O prefeito Antonio Belinati decidiu que só depois das eleições vai tratar do affaire Igapó-2 - o trecho aterrado do lago, que já está destinado a uma empresa privada. Posição estratégica, pois ele teme a reação (nas urnas) da opinião pública. Tem a esposa candidata à reeleição - como vice-governadora - também um filho candidato a deputado estadual (este o seu maior empenho) e o comprometimento de seu apoio ao governador Jaime Lerner. Quem conhece Belinati sabe que ele admite perder tudo, menos uma eleição.
Mas não é só. Em verdade, a Prefeitura nem conhece com precisão as medidas da área do aterro a ser licitada, porque há, paralelamente, um projeto de duplicar as ruas que circundam o lago, desde a Avenida Faria Lima (que leva à Universidade) até o pontilhão da Avenida Higienópolis.
Interessante que haverá uma licitação (ainda não publicada) para o aterro, mas já existe o ganhador... A vencedora é a empresa carioca In Monte, empreendedora de shoppings centers, já associada do Shopping Estação Plaza Show, de Curitiba, e que terá como sócia em Londrina a Construtora Plaenge, do empresário Ézaro Medina.
Aquela empresa também se valeu de um terreno público - propriedade da Rede Ferroviária Federal - para edificar o Estação Plaza, em Curitiba, mas não o recebeu em doação e sim o alugou, por dez anos, com opção de renovação do contrato por outros dez, e ao final toda a infra-estrutura construída passará ao domínio da RFF. Por que, em Londrina, terá que receber um terreno de graça?! E pergunta-se se, em vinte anos, a construção prevista também passaria para os domínios da Prefeitura. Será que isto consta do edital licitatório?
Mas aqui o povo nem quer doar, nem alugar e nem vender, porque não se trata de um pátio ferroviário, mas de um lago.
Agora se sabe que o projeto para o aterro é um shopping, com os equipamentos de lazer que lhe são inerentes.
Este seria o único caso, no Brasil, de uma empresa obter de graça, do poder público, um terreno para edificação de um shopping. Justamente sobre um lago, porque aquele aterro feito de entulhos, autorizado pelo então prefeito Wilson Moreira (inacreditável, mas aconteceu), sepulta um lago.
Muito estranho que, à exceção de Elza Correia, todos os vereadores tenham aprovado o projeto de doação do aterro. Ademais, autorizando construções sobre ele. E o aprovaram a toque de caixa, sem mesmo saber do que se tratava, enquanto tantos outros projetos de maior interesse público se arrastam por meses e até anos.
O aterro, de 90 mil metros quadrados, foi avaliado em R$ 1 milhão.
Mas, felizmente, vozes fortes já se levantaram, começando pela vereadora Elza Correia. Agora quem se pronuncia é a promotora de Justiça de Proteção e Defesa do Meio Ambiente, a Dra. Maria Lucia Ferreira Reichenbach. Se depender dela, essa doação não se concretiza. E se depender do povo, também não.
Pronunciaram-se também, pela defesa do lago, professores e alunos do curso de Arquitetura da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e outros destacados titulares da UEL, entre eles Telma Gimenez e o engenheiro-agrônomo Efrain Rodrigues, do Centro de Ciências Agrárias, que é um defensor do meio ambiente e recentemente defendeu tese de doutorado na Universidade de Harvard (EUA), sobre o processo de fragmentação das florestas. Afora inúmeras cartas publicadas na seção de leitores deste jornal e as vozes da opinião pública que se ouve nas ruas.
Já no terceiro artigo sobre essa questão, tenho defendido a idéia de desaterrar a área, porque nada substitui a água onde ela já existia, ainda mais numa cidade como Londrina, afastada de rios. Com uma draga se retiraria todo aquele entulho, constituído de restos de construções demolidas e ali lançados pelas construtoras. Estudos empíricos estimam que com 70 mil viagens os caminhões-caçamba da Prefeitura removeriam dali aquele mastodante, que se calcula com uma profundidade de 2 metros na lateral e 4 metros na área mais funda, onde gemem em agonia as águas sepultas, os aguapês, os peixes, os preás, as saracuras do brejo, os socós e as garças brancas... Há um local para colocar esses detritos, que é a denominada pedreira, nos fundos do bairro Cafezal, que já é um enorme monturo. Também se sabe que há interessados em entulhos e que os transportariam por própria conta aos locais de sua conveniência. Se não tudo, pelo menos parte.
Se o prefeito Antonio Belinati tiver boa vontade, justamente num momento feliz de sua administração e que lhe tem rendido simpatias e aplausos de toda a população, pelas boas coisas que vem conquistando para Londrina, não quererá jogar água abaixo (ou, aterro abaixo...) a sua boa imagem. Ele sabe que, se restaurar o lago, ressuscitando as águas, será sempre lembrado por isto. Mas se doar aquela área para beneficiar terceiros e não o povo, autorizando construções sobre o lago, será mencionado no futuro também como o autor do próprio aterro...
Também há, na Prefeitura, o projeto engavetado de uma ponte elevada (e não um pontilhão aterrado, como se pensa agora) unindo a Rua Maringá ao outro lado do lago. Ao invés de edificar o feio, por pressa ou economia, que se medite sobre o belo possível, antes que essa opção chegue tardia.
Uma administração pública não se resume apenas em obras e mais obras, mas em algo que deleite a cidade e deixe a população feliz, porque a cidade são as pessoas. E as pessoas são a meta-síntese das soluções sociais.
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina


