Dois fatos coexistentes na atualidade brasileira teimam em nos conduzir ao passado, o que leva a pensar no quanto é difícil alcançar o desenvolvimento neste País. Não que o passado contenha apenas coisas más. Afinal, atrás de gerações incontáveis estão grandes civilizações com seus sistemas, seus filósofos, inventores, desbravadores, poetas, visionários. E graças aos antepassados os caminhos da humanidade foram pavimentados pela experiência. Deste modo, se por um lado a essência humana não mudou, por outro nos foi legado o progresso que hoje se evidencia - apesar de ainda haver tantos tropeços e erros - na medicina, nos meios de transporte, nos meios de comunicação, nos avanços da democracia liberal, na instalação do estado de direito etc.
Nada é perfeito neste mundo transitório, mas temos que convir que apesar da ignorância e da maldade do homem - criatura capaz também de grandes gestos de altruísmo e de grandeza - alguma coisa mudou mesmo no Brasil, ainda que por força de nossa formação histórica tenhamos consideráveis redutos sociais e políticos onde a mentalidade do atraso funciona como freio de mão, que tolhe o futuro e impele a uma volta ao passado no que tange ao obscurantismo.
Mas mesmo diante de tal mentalidade que impede a oxigenação dos poros da sociedade, alguma coisa mudou entre nós. Já há alguns anos pode-se perceber que na política existe um eleitor mais atento nas escolhas, menos vulnerável à demagogia e ao populismo, mais crítico diante das atitudes dos governantes, tanto para julgá-los por suas ações corretas quanto incorretas. A mesma coisa ocorre a nível do consumo, onde já surge um consumidor mais exigente e mais consciente dos seus direitos.
Assim, na política e na economia alguma coisa se move lenta e imperceptivelmente, apesar da banalidade e da superficialidade deste final de século impressas na música, na literatura, na arte, nas religiões de superfície. E se tudo sempre se move nas sociedades, formando novos ciclos históricos e culturais, voltar completamente ao passado só com uma máquina do tempo, ou acabando de vez com o mundo através da guerra nuclear. Entretanto, algumas pessoas não conseguem se livrar da mentalidade de outrora, que diferente do respeito às tradições, mantém o aguilhão do atraso que impede o futuro. E aqui voltamos ao início do artigo onde citei dois fatos coincidentes e convergentes que se desdobram diante dos nossos olhos: um deles é o jogo de cena do governador de Minas Gerais, Itamar Franco. O outro é a cartilha produzida pela CNBB, relativa à Campanha da Fraternidade de 99, e que tem como tema o combate ao desemprego.
Itamar Franco é um homem do passado no sentido antiquado. Para sintetizá-lo adequadamente basta lembrar que na presidência da República, que recebeu por acaso, tornou-se o ‘‘rei do Fusca’’, desencavando de outras eras um modelo que já tinha rendido seu efeito econômico e social. Significativamente, dei outro dia com seguinte a inscrição que um ‘‘feliz’’ proprietário colocou no seu automóvel: ‘‘Quase a pé, mas andando no meu Volks’’.
Ora, com sua atitude irresponsável que apela para a moratória, sacode o dólar, desmerece o País diante do contexto internacional e faz retornar a inflação, com sua idéia fixa de voltar à presidência da República, com seus devaneios ridiculamente insurrecionais, com seus melindres para com o presidente Fernando Henrique, Itamar Franco quer fazer o Brasil andar a pé. Preso à teimosia que o incapacita para o diálogo próprio da arte política, obtusamente fechado em sua individualidade magoada, ele parece orgulhosamente dizer: ‘‘Se de fato não criei o Plano Real, pelo menos acabei com ele’’.
Itamar Franco, que não percebe que deste modo não abre caminhos de poder para si mesmo, mas para outras forças da oposição, faz-me lembrar os versos de Carlos Drummond de Andrade: ‘‘Minas não há mais’’. Afinal, o Estado que já se celebrizou por seus políticos, foi capaz de eleger em 1989 Newton Cardoso, o criador do grande déficit na economia de Minas do qual deriva o atual. E agora os mineiros elegeram Itamar Franco, que ‘‘quer ser Tiradentes com o pescoço do povo’’. Atrelado a ele, o vice Newton Cardoso, confirmando-se assim os versos do poeta.
Quanto à cartilha da CNBB, quem a teria inspirado? Recuso-me a acreditar que foi ditada por desígnios divinos, ou mesmo que tenha sido lavrada pelos 369 bispos que compõem a entidade. Isto, porque, se o intuito dos prelados foi piedoso no sentido de atenuar o desemprego, por outro eles propuseram receitas extremamente desapiedadas que levarão a mais desemprego. Isso fica claro quando se observa que os bispos são contra a tecnologia, que é geradora de trabalho - algo que nem Karl Marx proporia por ter sido um entusiasta do progresso. Apregoam a volta ao campo nos moldes da agricultura de subsistência, o que inviabilizaria o agronegócio, o grande gerador de empregos no Brasil. Pregam a moratória e são contra a abertura ao capital estrangeiro, esquecendo-se que nenhum país sobrevive sozinho, mesmo os mais poderosos, e que sem capitais, inclusive os externos, não é possível gerar mais riqueza, portanto, mais empregos. Quanto ao anátema lançado ao neoliberalismo, além de ser inócuo, traria, se funcionasse na realidade, mais desemprego. Recorde-se a propósito, que o neoliberalismo, ou capitalismo de cara nova, foi o sistema capaz de produzir riqueza, prosperidade e, portanto, emprego. Que o digam Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia, Canadá... enfim, os chamados países desenvolvidos.
Esperemos, então, que a CNBB tenha piedade do Brasil, e que Itamar Franco tome juízo juntamente com os chamados governadores de oposição, que foram eleitos para resolver problemas e não para reclamar. Caso contrário, o retrocesso pode nos levar para muito longe no passado.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina
E-mail: [email protected]

mockup