Quando o sol nos apresentou a última quarta-feira, todos nós tivemos a desconfortável sensação de estar instalados numa espécie de máquina do tempo. De volta aos anos 60, não nos deparamos com os cabeludos de Liverpool nem com o cinema de Federico Felini e Michelangelo Antonioni mas, sim, com as bravatas de Douglas Bravo nas selvas da Venezuela e a pontaria fria e precisa do capitão Carlos Lamarca nas ruas do Rio e São Paulo. O noticiário instantâneo do mundo globalizado acompanhava a invasão da Embaixada do Japão em Lima por guerrilheiros do Movimento Revolucionário Tupac Amaru. Até o nome do grupo fazia parte do amargo retorno, por lembrar os tupamaros uruguaios, protagonistas da violenta e infeliz guerra suja.
Instalados nessa máquina do tempo, tomamos contato com a realidade dura que pensávamos já ter sido afastada fazia tempo. Não, amigos, Francis Fukuyama, o americano de ascendência japonesa (como a História nos reserva sempre sua ironia mais fina!) que decretou o fim da História, estava errado. Os anos 60 mataram o sonho, mas a queda do Muro de Berlim não soterrou a História - no sentido que lhe deu Fukuyama, ou seja, a arena de conflitos, intolerância, competição desenfreada e da necessidade de cada ser humano se sobrepôr ao outro, amealhar mais fortuna, mostrar-se mais forte e mais sedutor. Com saúde de ferro, essa História apresentou a conta no Peru.
Como um grupo de 500 guerrilheiros no Peru consegue, em pleno fim do milênio, manter o mundo refém de sua vontade e de sua propaganda, está provado que a globalização não aumentou a inteligência per capita da raça humana. Pode aumentar a fortuna, é verdade, mas, da mesma forma como não garante uma melhor distribuição da riqueza, não assegura plenas faculdades mentais a ninguém. Um bando de malucos ainda põe o mundo em polvorosa.
O mundo, aliás, reagiu como pode: com indignação pela estúpida covardia cometida. E só. Isso porque falta a mínima tecnologia jurídica para por fim a esse tipo de aventura sangrenta. A tradição jurídica internacional garante à motivação política um status especial. Em parte, isso se deve ao fato de que os grupos de esquerda, no passado, lutavam pela restauração das liberdades democráticas, pisoteadas pelas botas dos gorilas militares do Terceiro Mundo. Mas também em parte por causa do charme todo particular do argentino Ernesto Guevara, o ‘‘Che’’, não por acaso inspirador do MRTA.
Seja qual for a motivação, ela já desapareceu completamente, pelo menos no caso da América Latina, onde ainda sobrevivem a ditadura anacrônica de Fidel Castro em Cuba e guerrilhas de pedra lascada no interior do México, da Colômbia e do Peru. Como nunca cruzaram as soleiras dos palácios que sediam o poder, seja pela luta armada, seja pela via do voto, esses grupos se dão ao luxo de chutar convenções antigas do direito internacional, como a que considera a área ocupada por Embaixadas território do país representado. Nem os gorilas chegaram a tanto. Até em nome da nostalgia dos tempos em que saltaram muros de Embaixadas na fuga para a liberdade, os políticos que sonharam antes a Utopia socialista pela trilha guerrilheira e hoje disputam o poder pelo caminho das urnas deveriam ajudar a desfazer esse equívoco de considerar a motivação política atenuante de crimes do gênero.
Nenhuma idéia política, por mais generosa que seja, pode ter mais valor do que a vida humana. Só por esse conceito de simples humanismo, não se pode aceitar nenhuma justificativa para o uso do sequestro de seres humanos, sejam eles embaixadores, ministros ou pessoas comuns para escusos pretextos de propagandas de ideários, sejam estes socialistas ou não.
A propósito, o mesmo racicínio vale para o julgamento do pleito dos sequestradores chilenos e canadenses do empresário brasileiro Abílio Diniz. O simples fato de a TV Globo ter abusado da própria ingenuidade e da boa fé alheia, aceitando veicular o hipócrita pedido de perdão do grupo político de esquerda que o planejou, não torna seu crime menos hediondo. Por julgar a idéia mais valiosa do que a vida, a motivação política, nas atuais circunstâncias, quando grupos do tipo lutam contra a liberdade, e não por ela, deveria ser considerada agravante. Jamais atenuante. Este seria a máquina para voltarmos ao futuro, para onde caminhávamos, de carona no sonho de Fukuyama, quando fomos bruscamente despertados pelos asseclas de Victor Polay Campos.
- JOSÉ NÊUMANNE é jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde.

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