A gente bem que tenta se lembrar apenas dos heróis Rivaldo e Ronaldo, nossos pentacampeões, donos do futebol cinco estrelas. A volta à realidade dói. No caso, aconteceu ao ver na TV a notícia sobre os gêmeos Ronaldo e Rivaldo nascidos no Recife. Afinal, quem é que consegue ver uma imagem dessas e não pensar no orçamento da União, no país das desigualdades, na dívida pública imensa e no dólar subindo?
Os heróis e os gêmeos são as duas faces de um Brasil que faz a gente chorar. Os craques nos trouxeram as lágrimas da emoção, da auto-estima, da bandeira desfraldada, do Brasil idolatrado no mundo, do hino em ritmo de Olodum na Bahia. Uma sensação de peito cheio que nunca vamos esquecer.
Mas os gêmeos exibidos na TV e seus pais fora do mercado de trabalho nos deixam de coração apertado. Difícil conter as lágrimas nos olhos. É o Brasil do desemprego, da fome, da falta de oportunidades. A mãe das crianças, dona Veroneide, dá dó. Torce para que um dos dois seja bom de bola. Quer, num futuro, quem sabe, repetir o gesto da família de Rivaldo, que distribuiu 30 quilos de feijoada e dobradinha para comemorar a atuação do pupilo pentacampeão.
Dona Veroneide é uma em milhares de mães de baixa renda que sonham ver o filho no topo do futebol. É o que resta, dada a baixa qualidade do ensino nas escolas públicas, especialmente, no interior, onde é comum professoras semi-alfabetizadas e alunos fora da escola muito cedo para trabalhar e ajudar no sustento da família.
O Brasil está cheio de Rivaldos e Ronaldos como os dois recém-nascidos. E de todas as idades. O que nos faz chorar é que há poucos com chances de chegar ao topo do mundo, como o Fenônemo e o pernambucano, personagens dos quais nunca nos esqueceremos. A nossa expectativa é a de que os políticos não se lembrem dos Rivaldos e Ronaldos apenas na fase pré-eleitoral.
Aos governantes e autoridades que receberam ontem os deuses do futebol mundial, apenas um pedido: não se esqueçam dos Rivaldinhos e Ronaldinhos que estão por aí em busca do sonho da bola. Dêem a eles a chance de estudar e ter uma outra profissão, no caso de lhes faltar o talento fenomenal daqueles que subiram a rampa do Palácio do Planalto. O poder de melhorar a vida desses Ronaldinhos e Rivaldinhos é de vocês, políticos. Assim como foi dos jogadores a garra que nos trouxe a quinta estrela.
DENISE ROTHENBURG é jornalista em Brasília

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