A trágica morte da princesa Diana em Paris levantou o debate sobre a responsabilidade da imprensa através da própria imprensa, um tema que talvez não interesse tanto ao leitor de modo geral. Entretanto, o assunto é relevante, pois diz respeito não apenas à vida dos poderosos do planeta, mas a cada um dos indivíduos que faz parte da sociedade de massas do atual mundo globalizado ou ‘‘aldeia global’’.
Num primeiro momento, o encarniçamento dos ‘‘paparazzi’’ que perseguiam o Mercedes onde estavam Diana e Emad Mohamed Dodi al-Fayed foi tão brutal e ostensivo que não pode ser amenizado em termos da responsabilidade sobre o acidente. Além do mais, esta espécie de ralé do jornalismo pulou sobre o carro já batido para fotografar os acidentados, chegando a impedir que fossem prestados os primeiros socorros às vítimas, a fim de conseguir mais fotografias que pudessem lhes render um bom dinheiro. Por causa disso, os ‘‘paparazzi’’ foram indiciados pela Justiça francesa sob a acusação de homicídio culposo e omissão de socorro.
Mas eis que na própria imprensa outros culpados começam a ser apontadas, esmaecendo-se assim a absurda violência com que se revestiu o crime daqueles fotógrafos especializados em roubar intimidades para fornecer intrigas e escândalos à mídia. Na lista de supostos culpados, que não pára de crescer, aparecem agora: o motorista da Mercedes, que teria tomado um gole de vinho a mais; as pessoas ilustres que adoram a notabilidade e não se importam de ver seus nomes enxovalhados em público; a própria princesa e seu namorado que dispensaram os guarda-costas; e, em última instância, a humanidade em si, medíocre, depravada por natureza, e que se nutre de obscenidades e fuxicos. Todos esses ‘‘culpados’’ estão sendo listados pela imprensa.
O excelente jornalista Gilles Lapouge, por exemplo, em matéria em ‘‘O Estado de S. Paulo’’ de 1/9/97, afirma que: ‘‘Na longa cadeia dos que conspiraram para a morte de Diana, os fotógrafos são apenas a parte mais visível e absurda’’. Em seguida, aponta o que chama de ‘‘forças bem mais protegidas e hipócritas’’. São elas, no seu entender, jornais ‘‘marrons’’ ou não; pessoas famosas que no início de suas carreiras estimulam os ‘‘paparazzi’’ e depois os criticam ou processam; e, finalmente, a sociedade ‘‘podre, indigna, decadente, em que todos são medíocres e cúmplices’’.
O brilhante jornalista tem lá suas razões, mas sua análise peca por excesso de emoção. Com ela, apesar de reconhecer os ‘‘paparazzi’’ como culpados, joga a culpa em ‘‘forças bem mais protegidas’’. Ele cita entre elas os jornais, esquecendo-se dos noticiários de televisão, mas de certa forma exime a imprensa que estaria a serviço da sociedade.
De fato, a humanidade como um todo está longe do ideal da perfeição, mas atribuir-lhe todas as culpas seria como dizer: para nós, da imprensa, a humanidade é podre, corrupta, hipócrita e gosta de violência. Alimentemos, pois, seus gostos, cultivemos, suas taras, acentuemos seus traços negativos e, assim, venderemos mais notícias, pois iremos ao encontro das expectativas do público devasso, das ambições dos poderosos, da vaidade avassaladora do ser humano, da mediocriade social. Contudo, isso equivaleria a aceitar como justas as ações de criminosos, de traficantes, de bandidos de toda a espécie, que agiriam à sua moda por saber que a humanidade não presta e é facilmente enganada.
Mas não se pode transferir eternamente a culpa para os outros. A mídia tem, por causa de sua força desmesurada, que pode ser descrita como o maior mecanismo de controle social da atualidade, acima mesmo dos controles tradicionais como a família, a religião e a educação, o dever de noticiar livremente tudo o que acontece, de combater os absurdos cometidos, mas, ao mesmo tempo, tem a obrigação ética de não estimular os submundos da humanidade a virem à tona. Ao dar vida ao que não merece, a imprensa gera monstros, na medida em que transforma a insignificância em notabilidade, o mal em exemplo a ser seguido, o bandido em herói, a privacidade em escárnio público. Cabe à imprensa um papel fundamental: o de não deformar mais uma humanidade ainda uniforme, porquanto ainda somos como um todo incapazes de optar pelo bem de forma constante.
Em 1954, escreveram Edwin Emery e H.L. Smith na obra ‘‘The Press and America’’, referindo-se ao ‘‘jornalismo amarelo’’: ‘‘... os jornalistas amarelos... asfixiaram os canais noticiosos dos quais dependia o homem comum, com um grosseiro desrespeito pela ética e pelas responsabilidades jornalísticas. O jornalismo amarelo é uma espécie de jornalismo gritante, espalhafatoso e estabanado que ilude o leitor de todas as maneiras possíveis. Ele se apoderou das técnicas de escrever, de ilustrar e de imprimir, que eram o orgulho do novo jornalismo, e dirigiu-as para usos condenáveis. Tornou a tragédia da vida melodrama barato e deformou os fatos do cotidiano de todas as formas que melhor lhe convinha a seus interesses de venda’’.
Quarenta e três anos depois pode-se dizer que o ‘‘jornalismo amarelo’’ foi além. Ele hoje é capaz de matar.

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