Mirian Guaraciaba
A morte do jovem Allesson, de 19 anos, há uma semana, com sintomas de febre amarela, nos faz regredir 50 anos. E nos envergonha. A doença estava erradicada há décadas e só um retrocesso absurdo permitiria que a febre amarela voltasse a assombrar os brasileiros. Foi o que aconteceu.
Allesson morreu e Andreya da Costa Neres, de 20 anos, sua irmã, sofreu os mesmos sintomas. A moça deixou o Hospital Santa Luzia, em Brasília, na tarde do último domingo, frágil, pernas e braços ainda trêmulos, com a dor da perda do irmão estampada no rosto.
Diante de um quadro tão trágico, a pergunta é inevitável: de que saúde pública falam as autoridades do governo Fernando Henrique, num país em que se permite a reinfestação do mosquito transmissor da febre e da dengue, doenças que não existiam, transmissores que não ameaçavam?
A reinfestação do mosquito Aedes não está relacionada com a miséria. É consequência direta da falta de atenção das administrações federais e estaduais. O transmissor da dengue e da febre amarela urbana sobrevive tanto na periferia, nos bairros pobres, como em áreas urbanizadas.
O Lago Norte, habitado por gente de classe média e alta de Brasília, está cheio de Aedes. A vigilância sanitária visita as casas, investiga, orienta, chama a atenção dos moradores para poças de água onde o Aedes se reproduz, mas não tem sido capaz de eliminar os focos.
E não foi por falta de aviso que o Brasil abriu a guarda para o retrocesso. Há dez anos, o ex-ministro da Saúde, Waldyr Arcoverde, alertou o governo que entrava (Fernando Collor, cassado por corrupção) para a reinfestação do mosquito transmissor da dengue e da febre amarela. Ele tem tudo escrito, documentado. Preveniu e sugeriu ação ousada e necessária. Onerosa, portanto. Foi punido por isso.
Então, são essas as políticas públicas de que tratam os ministros de Fernando Henrique? Que administração é essa que decide não aplicar os recursos previstos no orçamento em programas contra enchentes? Em 1999, o governo gastou algo em torno de 10% do que estava orçado na prevenção de um desastre que matou dezenas de brasileiros.
Em São Paulo, a prefeitura de Celso Pitta copiou a fórmula. Dados divulgados pela imprensa indicam que dos R$ 18 milhões previstos no orçamento da capital para a limpeza de bueiros, foram gastos 44,6%. A operação impede os alagamentos na cidade, que causam destruição, prejuízos, mortes.
E assim vai. Em todo o País vigora a política do descaso. Há quantos anos assistimos às tragédias provocadas pela chuva em São Paulo, Rio ou Belo Horizonte e interior de Minas Gerais? Tudo bem, dirão assessores e ministros, o presidente Fernando Henrique está preocupado com tudo isso.
Na sexta-feira da semana passada, o presidente Fernando Henrique reuniu os auxiliares mais próximos para discutir uma virada no governo. Anunciou que vai investir mais no social, convencido de que a economia vai bem e a inflação não passará de 6%. Seus eleitores – ou não – fazem força para acreditar. A crença no futuro é uma das raras qualidades dos brasileiros que nenhum governo conseguiu destruir.