DE PAI PARA FILHO - Sucessão nas empresas exige escolha e preparo adequados
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
Atendimento de excelência, serviços e produtos de qualidade, fidelização dos clientes, aumento da rentabilidade. Com tantas preocupações e exigências, muitos empreendedores acabam deixando de pensar em uma questão crucial: a sucessão da empresa. Afinal, alguém precisa ficar responsável por dar continuidade ao negócio.
''Hoje o jovem não quer mais ser a sombra do pai. Ele quer conquistar o espaço dele'', aponta o advogado Tiago Luiz Torres Costa, especialista em sucessão empresarial. Segundo ele, não existe uma regra básica para determinar quem será o sucessor e é importante deixar o filho escolher o caminho que quer seguir. ''Grandes empresas começam a preparar os possíveis sucessores a partir dos 12 anos de idade. Tanto eles podem assumir um posto na empresa como podem partir para uma carreira solo'', aponta.
Nesta entrevista, Costa alerta que o ideal é que o processo de sucessão tenha início enquanto o patriarca ainda está no comando. ''Quando existe a figura do fundador da empresa, há respeito e os filhos enxergam aquilo como o negócio do pai. Nesse momento, é preciso conversar e tentar conciliar os interesses de cada um com os da empresa'', aconselha.
Como o empresário deve proceder na hora de escolher o sucessor?
O empresário tem que ter consciência de que a organização pode ser eterna, enquanto o ser humano não é. Com essa mentalidade, ele começa a buscar no seu meio familiar quem é a pessoa mais indicada para a sucessão, preparando-a para que tenha uma base de estudo. Grandes empresas já começam a preparar os possíveis sucessores a partir dos 12 anos de idade. Eles são preparados para o mundo. Tanto podem assumir um posto na empresa como podem partir para uma carreira solo.
Quais as consequências para a empresa e para a família na hipótese de o patriarca querer forçar um filho a assumir o cargo?
Pode fazer com que a pessoa se revolte contra o negócio da família. Hoje, o empresário fundador passa muito tempo na empresa, às vezes 10, 12 horas por dia, além dos finais de semana. Dessa forma, ele acaba negligenciando um pouco a família. E o filho tem a imagem do pai ausente e muitas vezes não quer seguir esses passos. Por isso, é importante trabalhar na formação educacional dos filhos. As grandes empresas oferecem formação profissional aos seus sucessores e, quando chegar o momento certo, eles decidem se vão ou não assumir o posto. Mas caso decidam pela sucessão, precisam estar capacitados.
Antigamente, a maioria dos filhos nem questionava a missão de dar continuidade aos negócios da família. Os jovens de hoje têm uma postura diferente?
Antigamente o que o pai falava o filho cumpria. Hoje em dia não. Os filhos discutem e questionam mais. Hoje o jovem não quer mais ser a sombra do pai. Ele quer consquistar o espaço dele. Antigamente tinha aquele negócio de apenas ''tocar'' o negócio da família, mas atualmente já existem grandes faculdades e inúmeros cursos. As pessoas pensam na gestão do negócio familiar.
E como deve ser a escolha do sucessor?
Não existe uma regra básica para escolher o sucessor. É importante preparar a sucessão por critério de meritocracia. Tem que refletir: o que a pessoa tem que ter para assumir a direção da empresa? O que o mercado exige do profissional? Respondendo essas questões, deve-se buscar qualificar o sucessor. Não é para ter o filho ou o sobrinho na empresa pelo fato de ser da família. Ele tem que ter competência para assumir o cargo.
Quais procedimentos garantem que a sucessão aconteça da forma mais amigável e tranquila possível?
O mais importante é que a sucessão comece na cabeça do fundador ou de quem está à frente do negócio. Ele precisa ter em mente que o negócio que hoje é rentável pode não ser amanhã. Talvez hoje o fundador tenha condições de ficar na empresa por 12, 14 horas por dia, mas no futuro ele não vai ter forças para isso. E alguém vai ter que ficar no lugar dele. Para isso, é preciso criar mecanismos e estabelecer critérios para que os sucessores entrem na empresa. Deve-se adaptar os interesses de todos de uma forma que ninguém se sinta prejudicado e balizar isso com as questões legais da sucessão.
E quais questões legais devem ser consideradas?
A empresa familiar, assim como qualquer outra, tem uma estrutura jurídica que precisa ser respeitada. O primeiro passo é harmonizar o interesse do patriarca e dos filhos com a legislação de sucessões. É preciso fazer a sucessão de uma forma que não haja contestações judiciais posteriormente. Por questões legais, não se pode desprezar ou diminuir a participação de um dos filhos na parte que lhe cabe. É preciso harmonizar uma série de critérios e criar parâmetros para que eles possam suceder.
Entrando na parte jurídica, cria-se acordos de cotistas das empresas, reestruturação societária para atender os novos sócios e em alguns casos são criados conselhos de família e pactos familiares - documentos que regulamentam a relação dos familiares com o negócio.
Como evitar problemas na família por causa da sucessão na empresa?
O processo de sucessão tem que ser iniciado enquanto a matriarca e o patriarca estão presentes. Quando existe a figura do fundador da empresa, há respeito e os filhos enxergam aquilo como o negócio do pai. Nesse momento, é preciso conversar e tentar conciliar os interesses de cada um com os da empresa. A partir do momento que o fundador se afasta ou falece, a empresa se torna da família e cada um já começa a defender o seu espaço, sem ter uma voz de respeito.
O que a gente percebe é que somente depois que acontece alguma coisa as pessoas começam a pensar na sucessão. Esse não é o momento, pois está todo mundo fragilizado. Além disso, é um processo longo.
Quais opções sobram para o empresário que não encontra um sucessor na família?
Hoje existem dois cenários. Um é quando o fundador percebe que a empresa está crescendo bastante e que ele não vai ter um herdeiro. Alguns chegam a colocar a empresa à venda. Outra situação é quando o empresário busca profissionais no mercado para administrar a empresa. Em empresas maiores eles buscam uma abertura de capital na bolsa, pulverizando as ações no mercado.
Grandes empresas começam a preparar os sucessores a partir dos 12 anos
Processo tem que ser iniciado com a matriarca e o patriarca presentes


