De onde vem o sofrimento, afinal? Muitas vezes acreditamos que a vida tem que ser só de uma determinada maneira, que leva sempre àquele mesmo sofrimento e que não há mais nada além deste caminho. Quando isto ocorre somos nós mesmos que estamos criando a miséria da nossa vida.

Obviamente que existem situações em que somos vítimas das circunstâncias. Nestes casos não criamos nossa miséria e sofrimento, mas os ganhamos sem pedir. Porém, na maior parte das vezes os sofrimentos que vivemos são nossas próprias criações. Escolhemos viver mal quando poderíamos escolher viver de uma maneira favorável.

Infelizmente são muitos os que acreditam que nossa sina seja sofrer além da conta. Claro que o sofrimento é parte da vida, mas não precisamos aumentá-lo. Outra coisa que também ocorre é que a pessoa que sofre é vista com bons olhos pela sociedade, sendo até admirada. Ela ganha uma aura muito apreciada e valorizada. Já uma pessoa que se permite viver bem acaba sendo olhada com inveja e desconfiança.

Carregamos pesos que não precisaríamos e angústias que seriam melhor postas de lado. Nos apegamos aos nossos medos desmedidos, ansiedades intoleráveis e sofrimentos desnecessários como alguém que carrega uma mala pesada que estorva. A grande maior parte do nosso sofrimento são apegos que construímos ao longo da vida sem nem perceber que poderíamos viver diferentemente. Quando nos apegamos ao que nos pesa achamos, erroneamente, que estamos sendo cuidadosos e conscienciosos com nossos problemas, mas ocorre justamente o contrário.

Quando uma pessoa tiver realmente percebido que é a criadora de sua própria miséria ficará muito difícil para ela continuar vivendo assim. É fácil viver no sofrimento quando acreditamos que os outros estão criando todos os obstáculos. Desta forma, o que alguém poderia fazer a respeito? Nada. Ficaria com as mãos atadas e se sentiria apequenada. Por isso há tanta gente que se sente vítima dos outros e do mundo.

Porém, viver desta maneira é muito ruim e limitador, já que numa vida assim só há espaço para as lamentações. Entretanto, quando adquirimos consciência de que somos criadores de nossa própria vida e nos atentamos que há meios de vivermos de outras formas, muita coisa pode mudar. Podemos deixar de ser vítimas passivas para nos tornarmos donos de nossa própria história.

Criamos misérias porque tememos lidar com a possibilidade de felicidade. O miserável sofredor é aceito e sempre ganha olhares de aprovação, como se assim tivesse que ser a vida. Olhem ao redor e vejam se não é assim mesmo. Agora, se você ousa abandonar as misérias e criar outro tipo de vida que não inclua os padecimentos além da conta suscitará desaprovação e até escárnio. Muitos acharão que algo muito errado deve se passar com tal pessoa.

Todavia, quem ousa trilhar este caminho de abandonar as misérias desnecessárias não volta atrás, pois saberá que é totalmente responsável pelo tipo de vida que deseja. Desta forma, se tornará muito mais consciente das escolhas que fará ao longo de sua caminhada.

Uma das grandes belezas e utilidades da psicanálise é nos fazer viver uma nova forma de colocar os problemas para que não nos pese demasiadamente.

A psicanálise não os faz sumir, mas traz outras perspectivas para aquilo tudo que se tornou um fardo e nos adoece a ponto de não aproveitarmos mais a vida. Quem percebe que cria a própria vida não mais desperdiça tempo com sofrimentos desnecessários.

SYLVIO DO AMARAL SCHREINER, psicanalista (Londrina)

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