De olho no vizinho
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de março de 1997
Bete Fagundes 
Qual o município que hoje não precisa aprender a andar sozinho, com espírito independente para chegar, de fato, a uma liderança? Liderança regional.
Arapongas deu uma grande lição aos municípios que hoje só sabem lamentar a falta de dinheiro e de apoio oficial, seja do Estado ou da União. O caso chama muito a atenção porque a vontade de fazer partiu de um empresário que, diferente dos outros, prefere trabalhar em grupo para que todos ganhem. E que não se abala com as dificuldades.
Seu nome: João Sequeira Cardoso e Oliveira. Diretor-presidente da Moval. Foi ele quem convenceu os moveleiros de Arapongas a construir a Expoara Pavilhão de Exposições que na semana passada, primeira feira do setor (a Movelpar), recebeu cerca de 42 mil visitantes brasileiros e movimentou aproximadamente R$ 100 milhões em sete dias. Os números oficiais devem sair hoje.
Anos antes, seo João fez o mesmo. Convenceu o empresariado local a construir uma sede única para o Sindicato da Indústria de Móveis e Associação Comercial e Industrial, com espaço para outros. Prédio de 13 andares. Duas grandes obras feitas sem verba do Estado e muito menos do município. Nem por isso ele ficou chorando as pitangas, ou cobrando.
Todas as vezes, como sempre, aliás, o grupo falava da falta disso e daquilo, mas ninguém ousava sair a campo com um projeto debaixo do braço atrás de cotistas. Tem que ter peito.
Diante de um desses projetos, uma boa parte treme. O empresariado em geral não é muito acostumado a pensar grande, a projetar e fazer hoje o futuro - com o dinheiro dele, então, tudo fica mais complicado ainda.
É preciso que alguém compre briga, puxando para o seu lado as cabeças A-R-E-J-A-D-A-S e encurralando os indecisos, a turma do deixa disso, isso não é comigo. É uma turma grande.
José Roberto Pontalti, coordenador da Movelpar - na verdade, o homem que cuida dos interesses da classe -, revela que até 30 dias antes da abertura da feira, muitos da própria casa não acreditavam na viabilidade do projeto que consumiu R$ 5,5 milhões na estrutura e R$ 4 milhões na realização do evento.
Agora, se 70% dos compradores de móveis do país estiveram na Expoara, e estiveram, garante o coordenador -, coitado do fabricante que duvidando do negócio não alugou nenhum espaço. Perdeu a única oportunidade de faturar em plena entressafra e corre o risco de ficar fora das próximas negociações.
Enfim, o município que não mostra a cara, ou não conta com o despreendimento de lideranças que farejam oportunidades e influenciam positivamente o meio, é candidato a viver no ostracismo e levar o povo a um estado ainda mais grave de empobrecimento.
A vontade de ter indústria para fazer e acontecer - vontade de todos -, também cega. Londrina, por exemplo. Quantos projetos o município já não engavetou por estar 100% voltado para a industrialização (coisa que nunca fez, nem teve). Cadê a revitalização das ruas Maringá e Duque de Caxias? Sergipe, também. E o Centro de Eventos?
Onde está o empresário de Londrina? O que ele anda fazendo? - o empresário, não o representante oficial do empresário. Cadê a iniciativa (literalmente) privada?
A Londrina prestadora de serviços deveria ter planos, digamos, de reunir o setor de alimentação para fazer da Avenida Santos Dumont um centro gastronômico. Ou transformar o centro de cozinha chinesa (Rua Minas Gerais e vizinhança) em área transitável, atraente. E por que não ligar com ousadia a Higienópolis e Leste-Oeste? Uma Rua 24 horas na Quintino não seria interessante?
Agroindústrias, parques temáticos, indústrias de saúde, de entretenimento - teatro, música; isso sempre trouxe muito público a Londrina. Por que não se fala em iniciativas do gênero? Tem gente acreditando ainda que o município vai ganhar uma Renault para resolver os seus problemas? Falta movimento em Londrina. Faltam lideranças.


