Ruth, onde é que eu errei? Estava tudo acertado. Eles me garantiram que a emenda ia passar, que a coisa ia ser fácil. Agora estão todos fazendo rapapés para o turco.
Dona Ruth olha o marido, andando de um lado para o outro, desconsolada. Aperta a campainha chamando o garçon, mas o garçon não vem. O Palácio da Alvorada está às moscas.
- Fernando, eu lhe avisei. Não se deve confiar nunca na imprensa e nos políticos. Agora é cumprir o calendário e pular fora de Brasília. Vamos voltar para Ibiúna. Podemos fazer uma horta. Podemos vender repolhos naturais, sem agrotóxicos. Vai dar para passar o tempo.
O diálogo é ficção. A política também tem sua dose de ficção. Mas se Fernando Henrique perder a parada da reeleição vai ser um inferno. Haverá desmoralização política, vazio de poder. O presidente ficará sitiado, com as mãos atadas, sem nenhuma chance de tomar a iniciativa.
Agora, se como tudo indica, Fernando Henrique ganhar essa de lavada, conseguir, com folga, o direito de disputar um segundo mandato, a situação se inverte completamente. O presidente pode posar de César Romano, como o ex-prefeito do Rio de Janeiro que apareceu em fotografias sentado num trono cercado de ‘‘aios’’ que lhe espantavam o calor com leques de penas imensos.
Fernando Henrique vai ficar bonito. Sem querer dar uma de Herman Khann (aquele futurólogo que veio ao Brasil, fez um monte de previsões e nenhuma deu certo), o primeiro fato concreto que deve acontecer é uma adesão em massa para as hostes do governo. Uma adesão dos mais bobos, porque os mais espertos se aliaram ao governo antes da votação da emenda da reeleição.
Nessa hora, entretanto, o vencedor, o imperador precisa ser magânimo e não tripudiar em cima dos derrotados. Aceitar com toda a humildade a saraivada de apoios que irá receber. Com uma maioria avassaladora no Congresso, Fernando Henrique pode fazer o que quiser. Pode mandar chover e pode mandar fazer sol. De qualquer forma é preciso saber administrar a vitória e consolidar seu nome como a única possibilidade de o País ter estabilidade econômica. Também não vai ser assim tudo tranquilo, ‘‘céu de brigadeiro’’. Nos próximos dois anos serão necessários ajustes em vários setores. E essas coisas sempre criam dificuldades.
Fernando Henrique, se tudo der como o esperado, vai ter que administrar muito bem a oposição. Oposição é fundamental para legitimar governo e criar também o que poderia ser chamado de ‘‘adversário íntimo’’. Aquele que é velho conhecido, que todo mundo sabe como procede e que está sempre ali para receber as pauladas de praxe.
É por isso que muito tucano de rica plumagem torce para que Paulo Maluf não abandone a raia. Seja desde já, e, cada dia mais, candidato para disputar com Fernando Henrique. Se Maluf joga a toalha ninguém sabe o que pode aparecer. Um aventureiro, um fernandocollor que ninguém sabe os movimentos, pode assustar, pode provocar surpresas. Por isso seria bom que o velho Maluf se dispusesse a fazer o sacrifício.
E a esquerda? O PT? Esses estão em crise de identidade. Não sabem direito o que são, nem o que querem. Estão à procura de seu eixo. Não estão com uma reposta pronta para dar à sociedade. Precisam achar uma forma alternativa de reforma do Estado para se contraporem, mas parece que ainda vai demorar algum tempo para sairem dessa enrascada.

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