De olho na ética
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 25 de agosto de 1997
Fernando José Dias da Silva 
E agora o pessoal vem falar em ética na política. É como se ontem todo mundo fosse sério e, de repente, num passe de mágica, começasse a aparecer ladrão, muambeiro, traficante. Só agora é que entrou na moda vender mandatos, fazer caixa com o dinheiro dos subordinados, gastar dinheiro que estava reservado para velhinhos que ficaram sem casa por causa de desapropriação.
Em um país onde o rufião namora sua protegida, traficante também é viciado, prostituta tem prazer nas suas relações comerciais, carro usado já foi mais caro que carro novo, agiota cobra juros menores que a rede bancária e falsificam ingressos para ver o papa tudo pode acontecer. E acontece faz tempo. É memorável a importação de esquis que nós fizemos ainda na época do Brasil Colônia. Esquis para a neve.
São as tenebrosas transações que permeiam as nossas atividades, todas as atividades, há muito tempo. Por isso quando se fala em ética muita gente tem vontade de puxar o revólver. Aí a imprensa levanta um podre de alguém e começa a se auto-elogiar. Aquelas coisas de esforço de reportagem, do mestre no jornalismo investigativo, da independência da mídia, que conseguem botar o dedo na ferida, que permitem que a farofa seja espalhada pelo ventilador.
Só que na verdade as coisas não acontecem assim. Apesar de todo o foguetório essas histórias escabrosas não são resultado do trabalho titânico dos bravos rapazes da imprensa. Normalmente os nossos super-heróis da notícia estão em repouso nas redações quando aterrissa o assunto cabeludo. Colaboração desinteressada de alguém que não suporta esse estado de coisas que acha que é preciso dar um basta nessa bandalheira que está por aí.
Não importa se a colaboração desinteressada venha de alguém que pretenda o lugar do acusado, ou tenha sido preterido numa concorrência ou numa disputa com aquele que é alvo do ataque. Se é maracutaia tem que ser denunciada. Mas é nessa parte que as coisas se perdem, porque a história costuma ser contada como se ela tivesse surgido do nada, como se ela fosse independente de todas as relações de temperatura e pressão do ambiente em que se produz.
São as meias verdades, que as vezes podem ser mais condenáveis do que as tramóias que vieram a público. É preciso saber sim porque a notícia surgiu e de que forma surgiu. Preservar fonte é uma coisa, outra é esconder o verdadeiro objetivo pelo qual alguém, de mão beijada, entregou assunto quente para ser publicado.
Tudo isso para dizer o seguinte: preciso tomar o maior cuidado com o que vem por aí. As eleições estão chegando e várias biografias serão postas em cheque. Os arsenais estão sendo abastecidos com os mais variados tipos de obuses, artefatos bélicos, para serem lançados contra adversários. E nessa guerra vale até a análise da performance sentimental de determinadas figuras que sentam em belas cadeiras da república.
Se surgirem coisas estranhas daqui para frente, acusações que ninguém sabe de onde surgiram, não há motivo de preocupação. É só mais uma martelada na ética.


