Um bebê gordinho ainda é considerado saudável, mas nem sempre essa máxima é verdadeira. A obesidade já é considerada uma epidemia mundial e as crianças não estão imunes. Muitos dos novos hábitos de vida colaboram para isso, como o consumo excessivo de alimentos industrializados, que não nutrem o organismo. Outro problema é o consumo cada vez menor de frutas, legumes e verduras, trocados por doces ou outros alimentos não saudáveis.
Mais um fator que contribui para que muitas crianças e jovens brasileiros estejam acima do peso é a violência urbana. Para proteger os filhos, muitos pais impedem que eles brinquem na rua. Com espaços cada vez mais restritos para a diversão, o sedentarismo ganha força em todas as idades.
Mas até que ponto hábitos inadequados como a falta de exercícios e a má alimentação são determinantes para a obesidade? Há outros fatores que implicam no aumento de peso dos jovens? O professor de Educação Física na Universidade Estadual de Londrina (UEL), Enio Ricardo Vaz Ronque, alerta que nem sempre a prática de atividade física é garantia de que a criança está livre da obesidade. Isso ocorre porque não adianta fazer um esporte, por exemplo, mas manter hábitos sedentários no restante do dia. "É importante que a criança e o adolescente façam atividade física, mas também é importante reduzir o tempo de tela, que é o uso de computadores, videogames e televisão", destaca.
Por que a obesidade atinge cada vez mais crianças?
Acho que é um conjunto de fatores. A obesidade de forma geral é um problema de saúde pública e multifatorial. A obesidade infantil não é diferente. Os fatores vão de casos de ordem genética, que não representam a maior parte, aos hábitos de vida modernos. Dentre eles o que se destaca é a alimentação inadequada, com o aumento do consumo de alimentos ricos em gordura e a falta de frutas e hortaliças. Além da diminuição da atividade física diária desses jovens. Outros fatores também podem estar envolvidos, como o socioeconômico.
Como o fator socioeconômico influencia?
Desde a constituição familiar, o número de irmãos, pais separados, classe social, isso tudo tem sido foco de estudo, principalmente no Brasil, por ter um grande desequilíbrio na sua distribuição de renda. Até mesmo o tamanho da casa tem sido alvo de estudo.
E qual é a influência dos hábitos alimentares nesse problema?
Isso é algo ainda difícil de identificar. Obviamente, o maior peso está relacionado ao consumo excessivo de calorias vazias, que não trazem nenhum benefício ao organismo. Fizemos um estudo que aponta que quem consome legumes e verduras mais de três vezes na semana acaba tendo uma proteção contra a obesidade. Quem consome abaixo de dois dias na semana tem um risco 49% maior de sobrepeso e obesidade. E quem é ativo tem uma proteção de 10%. Não tem como analisarmos isso de forma separada, mas o jovem que faz pouca atividade física tem uma tendência de ingerir mais calorias, de ter uma alimentação mais inadequada por estar nesse ambiente de não fazer nada.
Outro fator interessante é o comportamento sedentário, principalmente o tempo de exposição de tela, que é o uso de computadores, videogames e televisão. Isso aparentemente tem maior impacto na prevalência de sobrepeso e obesidade do que propriamente a atividade física. É importante que a criança e o adolescente façam atividade física, mas também é importante reduzir o tempo de tela. Posso ser ativo e ficar grande parte do meu tempo em comportamento sedentário. A recomendação hoje é de 60 minutos diários de exercícios para jovens. E pelo menos três vezes por semana ter um programa sistematizado. Quando se fala em 60 minutos de exercícios é fazer atividades que elevem o gasto energético. Mas também ter menos de duas horas por dia de exposição de tela.
Alguns videogames novos propiciam que o jogador faça exercícios. Isso vale como atividade física?
A literatura está começando a trabalhar com esse problema. Estamos começando um projeto, com um aluno de doutorado, para saber se os videogames ativos trazem os mesmos benefícios que as atividades tradicionais. Alguns videogames, por serem ativos, trazem um gasto energético maior do que os tradicionais. Mas precisamos saber se têm o mesmo gasto da atividade tradicional. E precisamos saber se para crianças que têm uma quantidade de gordura corporal elevada, esse tipo de atividade poderia ser uma estratégia, por ser mais atrativa, para pelo menos controlar a obesidade.
Qual é o grau de influência dos hábitos de vida na questão da obesidade?
Essa mudança no hábito de vida da sociedade e os fatores culturais são importantes. Alguns fatores identificados aqui são diferentes em outros países. Aqui o transporte para a escola é um fator importante. Na Holanda, por exemplo, os jovens vão para a aula de bicicleta. No Brasil a questão da segurança tem levado a sociedade a restringir esse contato do jovem com a natureza.
O que as pesquisas têm mostrado é que a família é importante na prevalência do sobrepeso. O excesso de peso dos pais constitui um fator significativo, não por ordem genética e sim pelo hábito da família. A criança come o que os pais comem, o adolescente já se pauta um pouco mais pelo que o grupo come. Assim como o jovem não faz exercícios porque não tem amigos para fazer junto, a criança não faz porque o pai não incentiva, não leva para fazer e não faz junto. O importante é a família adotar um hábito saudável.
Qual é a atividade física ideal para cada idade?
Dois aspectos precisam ser diferenciados. A atividade física habitual é a criança tentar fazer o máximo de atividade que consiga para atingir as recomendações que indicam uma certa proteção. Outra coisa são os programas de exercício físico. Muitas vezes o pai só coloca o filho no programa de exercício, a criança vai duas ou três vezes por semana, mas o resto da semana fica na frente da televisão ou do videogame. Esse entendimento tem sido difícil, de que o importante são os pais tentarem adotar hábitos saudáveis para que isso seja transmitido aos seus filhos e permaneça. Para a criança o brincar é o importante, enquanto que o adolescente já se sente mais estimulado a seguir programas de exercício, como academia, natação. É claro que atividades de contato, que têm um aumento de exposição a riscos, dependem da idade. O importante é que a atividade física seja prazerosa.

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