De novo a articulação para equiparar ganhos
Mal irrompe um problema de abuso no meio parlamentar brasileiro e outro surge, parecendo que um estigma marca a nação e a condena a viver em constante estado de indignação com a comunidade política. O noticiário de ontem é que os deputados federais já se articulam para equiparar os salários dos Três Poderes. Eles pegam carona no aumento que acaba de ser aprovado (por eles mesmos) para os ministros do Supremo Tribunal Federal e que agora segue para exame do Senado.
O benefício, se aprovado, abrirá o portal para favorecer também os deputados federais, os senadores e o presidente da República. O escândalo no Senado ainda exala mau cheiro pelo seu recente sepultamento e outro já desponta, com aceno de render muito noticiário e muito protesto da opinião pública, para finalmente resultar áá- com quase certeza - na aprovação dessa melhoria de ganhos para todos. E assim terá prosseguimento o festival de gastos abusivos, sem que, aparentemente, poder algum o detenha.
A diferença (para cima) do ganho dos ministros do Supremo e de quanto recebem os deputados é de cerca de R$ 8 mil. Já o salário do presidente da República se distancia ainda mais: R$ 13 mil (para baixo). Os benefícios paralelos são muitos para o comandante supremo da República, mas sua retirada mensal constante na folha de pagamento é de R$ 11.420, portanto inferior à de um executivo empresarial mediano. Os deputados ainda estão cozinhando a ideia da equiparação, e um propósito é fazê-la valer já para o ano que vem e outro é implantá-la em 2011. Seria utopia imaginar-se que uma equiparação poderia também ser nivelada por baixo, ou seja, estabelecer os salários dos ministros do Tribunal, dos deputados federais e dos senadores no nível do ganho do presidente da República. Nenhuma comparação poderia ser mais justa que essa, por ter como referência o ganho do funcionário público mais graduado da República. Mas imaginar isso no sistema de farra pública em que se vive é como sonho de noite de verão - para lembrar a alegria momentânea no desfecho do drama romântico de Shakespeare.
Equiparar (obviamente que para cima) os ganhos nesses escalões dos Três Poderes é um anseio antigo. ''Não temos como discutir essa questão sem grande desgaste'', declara o vice-líder do Governo, Ricardo Barros. Ele se refere ao desgaste do corpo legislativo, porém maior será o desgosto da população tendo de bancar mais esse provento. Assim caminha a República, até que em determinado momento a nação resolva levantar-se contra tanto abuso e, afinal, a moralidade se instale.





