De lobos, cordeiros, porquinhos
Descubro, ao mesmo tempo deliciado e indignado, que as historinhas infantis que leio e releio, ouço e torno a ouvir, conto e reconto para a minha netinha Analuz, prestam-se para analisar de um modo metafórico a atual (des)conjuntura econômica, política e social, tanto no Brasil quanto no mundo.
Todos estamos lembrados dos lobos neoliberais de todas as latitudes, travestidos de cordeiros, com seus discursos do tipo casas de tijolos para todos, promessas que se transformaram, quando muito, em frágeis casas de madeira ou de palha. E nunca para todos. Além disso, o pouco que foi construído acabou sendo desmontado pelo cupim da corrupção ou sugado pela ganância dos lobos do mercado financeiro. E não houve necessidade de muito esforço no bufar, no soprar e no abocanhar.
Tomemos como exemplo a América Latina, para ficarmos no nosso universo mais próximo. Em primeiro lugar, a ausência de ditaduras nos últimos vinte ou trinta anos não significou, em contrapartida, a construção de democracias verdadeiramente sólidas na região.
No Brasil, o projeto globalizante e neoliberal, representado pelos Fernandos, conseguiu enganar imensas parcelas do povo durante uma década. Hoje, até essas parcelas já percebem que a construção foi apenas de papel e sabem quem é o lobo mau, afinal. Todos também reconhecem em Fernando Henrique não mais o príncipe dos sociólogos nem o intelectual de esquerda, mas o equivalente aos governadores-gerais do Império Romano ou aos sátrapas do Império Persa. Ou pior ainda, apenas um subserviente despachante de ordens do atual império, o dos EUA.
O México completou em 1994 a sua anexação tácita ao império. Nas eleições de 2000, foi superada a dinastia de 70 anos de um só partido, mas o México passou a ter um novo presidente que pouco mudou na satrapia. Parece mais uma troca da guarda. Na Argentina, Menem fez o que fez e até já foi preso. O presidente De la Rúa oscila entre assumir ou não a governadoria-geral daquela província imperial. De qualquer modo, o país tenta recompor o que restou da casa de palha e madeira podre, após o tufão neoliberal. Conseguirá?
O Peru da era Fujimori deu no que deu. Agora, porém, espera-se que a origem indígena do novo presidente supere a sua formação harvardiana e recomponha as raízes legítimas daquela nação andina. No Uruguai, segundo Eduardo Galeano, a esquerda saiu do aquário e pobre já vota em pobre. Vota, mas ainda não conseguiu o poder.
No Chile, um ex-socialista demonstra mais uma vez que a pior direita é aquela constituída pelos migrantes da falsa esquerda. Na Venezuela, sob uma aprovação popular incontestável, o presidente Chávez desmontou, até os alicerces, a construção corrompida que ali existia há mais de quatro décadas. Agora, tenta uma construção nova para o país. Espero que consiga.
Pelo que se vê e não vimos tudo a América Latina é um curso completo e atualizado de sociologia política. Ao vivo e em cores.
Algumas perguntas são inevitáveis. Quando e como soará a décima segunda badalada da meia-noite, ou seja, quando a carruagem da cinderela neoliberal mostrará ser apenas uma abóbora? E o que acontecerá depois?
Dá para afirmar que esse futuro está bem próximo, porque a história agora anda muito rápido. Somente duas décadas foram necessárias para espalhar o sonho mistificado do neoliberalismo e da globalização e essas mesmas duas décadas foram também suficientes para mostrar o seu imenso fracasso. Muitos de nós, estigmatizados jurássicos ou cretácicos, já havíamos prognosticado essa hipótese. Inutilmente, aliás.
No nosso Brasil, os convivas do banquete e do baile principesco já estão disparando porta afora, saciados ou abocanhando ainda os últimos quinhões. Outros, saem devagar na busca de algumas sobras. Os desconvidados do andar de baixo e os indesejados a imensa maioria dos habitantes do reino acumulam inquietações e intenções de virar a mesa. Apenas não o fizeram porque não conseguiram ainda compreender como construir a sua própria mesa, à qual todos possam assentar-se e não apenas alguns, com lugar marcado. Quando poderá se realizar esse sonho possível? Breve, muito breve. Aposto.
- LUIZ CARLOS CORREA SOARES, de Curitiba, é engenheiro e vice-presidente do Sindicato dos Engenheiros do Paraná (Senge-PR)





