De empresa a santuário
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de agosto de 2002
Abraham Shapiro 
No mundo corporativo a espiritualidade no ambiente de trabalho é um tema que vem ganhando a atenção de forma intensa nestes últimos anos. O que antes era quase um tabu por parecer-se místico ou religioso, hoje se insere na atmosfera organizacional como uma medida estratégica .
Por mais visão que se tivesse, era quase impossível imaginar empresários e executivos buscando ajuda em atividades tão diferenciadas como a espiritualidade. Congressos, encontros profissionais e simpósios de Recursos Humanos abordam cada vez mais este tema de forma tão entusiástica. O que antes beirava a discriminação, surge como uma espécie de tábua salvadora para as angústias atuais.
Mas por que ou como a espiritualidade passa a ser o bom fruto de todas as buscas por melhorias no ambiente corporativo ? Resposta: à medida que precisamente este aspecto inerente à vida do ser humano toma lugar de evidência e é valorizado, confere significado à missão da empresa e ao trabalho das pessoas.
Todos, sem nenhuma exceção, desejam encontrar o real valor de cada coisa de que participa ou realiza. Isso não se traduz, apenas, em dinheiro. Por mais que o dinheiro pareça suficiente para motivar um trabalhador, a prática mostra que não. Qualquer ser humano deseja viver uma vida com significado, independentemente de seus ganhos financeiros. Dinheiro é bom desde que seja parte de uma vida significativa.
Existindo esta consciência, a consequência imediata é que os fatores mais buscados pelos executivos das organizações fluem com muito maior facilidade: a motivação, o desempenho, o espírito de equipe, a comunicação eficaz, a qualidade, o foco no cliente, o ''estar de bem com a vida''.
Em janeiro de 2002, a revista Exame trouxe em sua capa o tema ''Deus ajuda?''. Mostrava como grandes empresas abriram espaço às manifestações e necessidades religiosas de seus funcionários e quais as consequências disso. Normalmente aproveitando um horário de ócio após o almoço ou no início da jornada diária, cristãos, judeus, muçulmanos, budistas e outros grupos se reúnem e praticam alguma forma de culto ou reflexão conjunta em seus locais de trabalho.
Casos curiosos foram enfatizados nesta matéria. Situações anteriormente insolúveis ou desfavoráveis passaram a contar com energia nova por parte de quem mostrava-se alheio aos problemas. Muitos dos que antes externavam somente envolvimento profissional, passaram a atuar pró-ativamente, comprometidos com o ideal comum e não apenas com suas competências.
Milagre? Efeito sobrenatural? Nada disso. O mistério que rodeia o papel da alma em nossa vida começa a se esclarecer mesmo aos olhos da ciência. De fato, não temos uma alma apenas para sobreviver à morte. Ela não é uma entidade estranha sem nenhum papel na existência terrena. Ao contrário. Nossas almas são uma parte que integra nossa vida neste mundo antes de qualquer concepção religiosa existir ou se impor.
Qualquer atividade que o ser humano desempenha é realizada por um corpo e por uma alma que o habita. Sem ela não há vida. Da mesma forma, sem ela, não há ação completa, não há trabalho, não há projeto nem criação.
Podemos atingir todos os itens de nossa lista de desejos materiais, e ainda nos sentirmos vazios. Podemos ter atingido o ápice de nossa profissão e, mesmo assim, sentir que nos falta alguma coisa. Podemos saber que os amigos e conhecidos nos invejam e ainda perceber a ausência de um contentamento verdadeiro em nosso interior. Então, talvez tenhamos que recorrer à terapia para ajudar a preencher o vácuo e ancorar nossas vidas em águas seguras. É bom recordar que o significado original literal da palavra psicoterapia é 'tratamento e cura da alma' - e é precisamente nossa alma que necessita de tratamento .
É perfeitamente compreensível e urgente que as empresas enfoquem seus executivos e funcionários como pessoas que possuem alma e buscam viver uma vida com valor e profundidade também em seu ambiente de trabalho. Este caminho produzirá resultados efetivos a custo zero. Não a inconsistência que as intermináveis palestras e blá-blá-blá de motivação e entusiasmo produziram - algumas vezes até com ressaca dias depois.
Espiritualidade é realidade. É alimento interior. É valor que todos buscam. Impossível fugir disso. Independe da religião. É natureza. Afinal, ao olhar o mar é possível que se deduza ser ele apenas água. Mas um simples mergulho à beira da praia revelará que um mundo quase infinito habita em seu interior.
ABRAHAM SHAPIRO é engenheiro, estudou no Seminário Rabínico Wiznit de Nova York, atualmente é profissional em planejamento estratégico para novos negócios e relações corporativas


