De candidatos e de sapatos
Chamo de comprador avulso aquele que não tem preferência definida para comprar sapato ou candidato. Com as modernas campanhas televisadas e comiciadas, os estilos e fantasias das vitrines conduzem as preferências e as mudanças de preferências dos avulsos. Os níveis de transparência e de limpeza ficam em segundo plano. Os impactos que provocam na mente do eleitor o levam a decidir desconsiderando o realismo das propostas de venda. É assim que acontece com o comprador avulso de sapato: a conversa do vendedor o conduz à decisão. Depois, o pé se amolda ao sapato errado.
O número de compradores avulsos naturalmente diminui com o avançar das campanhas. Todavia, sugiro que, mesmo no dia das eleições, os avulsos em Londrina somem até 16%, ou seja, cerca de 48 mil eleitores. São naturalmente mutantes e imprevisíveis. Uma característica do candidato, ou da proposta, um evento, uma influência de conhecido, uma sugestão, uma aparente coincidência com o que já sabe, enfim qualquer fator pode fazê-lo mudar na última hora. Fatores negativos são mais influentes nessa mudança que fatores positivos.
Comprar sapatos ou votar provoca nos perplexos uma certa exaustão emocional. Eleitores mais sofisticados que os avulsos, os perplexos não são impactados pela força e barulho das campanhas. Buscam analisar os fatores da personalidade dos candidatos: Reservado? Extrovertido? Dependente? Imaginativo? Assertivo? Tímido? Casual? Consciencioso? Independente? Inteligente? Lento?...
O perplexo comprador de sapatos muda de loja na hora de escolher. O eleitor perplexo pode mudar de candidato também. Mas, ao contrário do eleitor avulso, ele costuma tomar a decisão por ele mesmo. Todavia, parece que os resultados de pesquisas eleitorais podem levar confusão à cabeça do perplexo. Terão sido obtidos com o melhor pé metodológico à frente?
As boas casas de sapatos se sustentam e até crescem com a relativa fidelidade de 68% que tratam como clientes. Compradores da parcela populacional de 32% são acidentais. Não se pode contar com eles no orçamento das despesas.
Assim, também deve ser para os partidos e candidatos. Nas proporções conquistadas, 68% são fiéis a cada candidato. Os restantes 32% são votos mercuriais: difíceis de determinar e, principalmente, de captar. Estão distribuídos em avulsos, perplexos, relativistas e idealistas.
Além das sinuosidades já descritas, esse indetectável terço de nossos eleitores deve ser examinado à luz das seguintes influências: 1. Existe o fenômeno da homofilia demográfica, pela qual o voto do eleitor desse terço populacional é influenciado pelas conhecidas intenções de votos de iguais no gênero, na escolaridde, na faixa de renda, na religião etc. 2. Existe o fenômeno da teoria do rebanho, pela qual o eleitor dessa cota populacional dá o seu voto ao líder da maioria; 3. Existe o fenômeno da simpatia é um sentimento que nasce num só momento sincero no coração. Não há argumento nem demonstração contrária que destrua simpatia; 4. Existe o fenômeno das intenções veladas. São também inflenciadas por gênero. Mulheres têm mais intenções éticas que homens em média, e este efeito não é mediado por outras variáveis; 5. Existe o fenômeno dos satisfacientes, pelo qual o eleitor desse quinhão, não acreditando em nenhum candidato como salvador, vota em qualquer um pelo qual não tenha aversão.
- ALEXANDRE DO ESPÍRITO SANTO, Ph.D. é professor universitário em Londrina





