Não sei o porquê da escolha de Davos e de Porto Alegre para as duas grandes reuniões mundiais que aconteceram nestes dias. Mas uma coisa é certa: os integrantes do Fórum Econômico Mundial (FEM) encontraram na Suíça o lugar ideal para esse tipo de encontro e os participantes do Fórum Mundial Social (FSM) também se sentiram em casa na cidade gaúcha. De um lado a terra dos bancos, o símbolo do capitalismo questionado; do outro, a cidade petista brasileira há doze anos somando conquistas.
A cena dos participantes do FSN arrancando soja e milho de uma empresa multinacional é em si patética; ela teve apenas o mérito de mostrar a eficiência da Polícia Federal ao expulsar o estrangeiro agitador! A invasão liderada por João Pedro Stédile e por José Bové fez a France Press produzir uma bela reportagem sobre a questão fundiária brasileira, no mínimo aplaudida pelos setores progressistas europeus, que consideram até hoje o MST, o ‘‘maior movimento social’’ dos últimos cem anos.
Mas se tudo isso foi, digamos, a parte hilariante do espetáculo gaúcho, o Fórum Mundial Social é o que de mais legítimo podemos ter no momento. O filósofo francês Patrick Vivert foi feliz ao defender o ‘‘pluralismo das idéias’’ e ao sublinhar a vantagem para a humanidade em ouvir as divergências. Em Davos, os ‘‘grandes senhores deste pequeno mundo’’, não estavam muito interessados em ‘‘filosofias’’. Lá, o modelo atual neoliberalizante, é o último grito de uma história em que o Estado já ocupou diversos papéis e as liberdades do indivíduo já perceberam conquistas e derrotas, muitas das quais atreladas a sistemas que simplesmente apelavam para valores que nem sempre preservavam o humano enquanto tal.
Em Davos se procurou reafirmar o que parece óbvio a todos: o atual sistema político-econômico-ideológico não tem alternativas capazes. Ou não se conhecem ou não são ‘‘interessantes’’. Os ricos ali presentes, querem também algo mais óbvio ainda: preservar o status quo e garantir seus privilégios, arregimentados ao longo da segunda metade do século passado, negando o que ressalta aos olhos de todos, ou seja, que o mundo hoje é mais injusto e iníquo em termos de distribuição de riqueza, do que era há 50 anos. Que os países mais ricos se distanciam vertiginosamente dos mais pobres e que o fosso criado corre o risco de se tornar intransponível com traumas profundos para os dois lados.
Os senhores de Davos não são insensíveis. Se assim fosse, diríamos que a pequena minoria de ricos brasileiros ignora os problemas do País ou que o Fernando Henrique Cardoso quer entregar o patrimônio nacional ao estrangeiro. Os ricos que estão na Suíça são apenas senhores de si mesmos. Estão convictos que o modelito neoliberal é o que melhor ‘‘cai’’ no momento e que os culpados pelo superaquecimento do Planeta são os países em desenvolvimento, como o Brasil, que derruba a Amazônia. Isto não é equívoco. A esta convicção nós teremos que chamar ideologia dominante ou ‘‘pensamento de grande’’.
O pessoal de Porto Alegre caiu no ridículo nas telas helvéticas, mas consagrou imagens, que demonstram que sempre existiram e existem, ou coexistem, outras maneiras de pensar e de ver o progresso. É a voz dos contra! É literalmente a voz dos ‘‘sem-voz’’. Os cachorrinhos latem enquanto a carruagem passa... mas o latido pode acordar os que dormitam embalados pelas velhas rodas de ferro sem se aperceber que de outras maneiras se chegaria mais rápido e mais seguro.
Enquanto isso, Tony Blair se mata para descobrir ‘‘sua terceira via’’ e a Europa sabe melhor do que ninguém que mais um modelo entra no crepúsculo apelando para seu sucessor. Do lado de cá, temos um presidente que é ‘‘nem Davos nem contra Davos’’, bem pelo contrário (!), numa clara manifestação de que se lá procuram uma outra via, nós aqui preferimos a via diplomática de ficar em cima do muro, embora todos saibam qual é o nosso lado mesmo.
A globalização, essa ninguém segura. Mas que seja então globalização global. Que da Patagônia ao Alasca, da África ao Japão, da Índia à Rússia, todos sejam ‘‘globalizados’’, e antes de mais nada tenham direito ao essencial para viver. Direito de usar o computer? Sim. Mas por que não começar pelo direito de ir à escola, de ter uma família, uma moradia?
Em Davos, Porto Alegre foi apenas uma palavra portuguesa de difícil pronúncia. Em Porto Alegre, Davos foi uma palavra que se tornou indigesta. Vale lembrar o bizarro episódio dos constantes cortes de luz no mais rico Estado, do País mais rico do mundo. A Califórnia vem sofrendo racionamento em consequência de um desastrado programa de privatizações que deixou as duas principais empresas de energia do Estado à beira da falência. Terá porventura este episódio causado indigestão aos senhores do mundo?
E os países de segundo e terceiro mundo afinal de que lado deveriam estar? Em Davos ou Porto Alegre? Por Davos ou contra Davos?
- PADRE MANUEL JOAQUIM RODRIGUES DOS SANTOS é pároco da Igreja Imaculada Conceição em Londrina

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