Durante os últimos dias estamos sendo permanentemente bombardeados com informações sobre a desvalorização do real, o movimento das Bolsas de Valores, a ameaça de retorno do processo inflacionário, o risco do esvaziamento das reservas cambiais; tudo isso bem explicado... para economistas, administradores e afins.
E para nós advogados, enfermeiros, donas de casa, arquitetos, balconistas, telefonistas, funcionários públicos, enfim, homens comuns pertencentes a uma sociedade que no final também acaba pagando a conta, como isso vai ser traduzido?
Pelo menos na questão do financiamento dos carros importados, já se observa a movimentação de uma parcela desses homens comuns na tentativa de mudar o índice de reajuste das prestações contratado, e embora diga o ditado ‘‘o que é tratado não é difícil de cumprir’’, lá se vai mais uma causa amontoar o atarefado sistema judiciário.
É verdade que a propalada mas relativa estabilidade do real nos fez respirar um pouco depois de anos de inflação galopante, e alguns desses ‘‘homens comuns’’, no universo da população brasileira, entenderam essa pausa para respirar como permanente, garantindo uma licença para gastar nos mesmos moldes dos países estáveis e desenvolvidos.
Um desses ‘‘homens comuns’’ apareceu chorando na televisão porque sua dívida aumentou na mesma proporção do dólar e então quer que o governo resolva o seu problema, porque para ele é importantíssimo manter seu carro importado, seu poder aquisitivo e seu status. Ele foi a uma financeira, emprestou dólares tomados também de empréstimo de um banco estrangeiro e agora quer que o governo pague a conta.
Porém, uma outra parcela desses homens comuns, a grande maioria, é o que em linguagem jurídica se costuma denominar de homem médio, ou pater familiae, ou seja, aquele que tem cuidados normais com as coisas que o cercam: os investimentos, os filhos, os gastos. E esse homem médio possui um carro nacional, quando possui, que troca de tanto em tanto por outro menos usado, prestigiando a indústria nacional tão combalida.
Além disso, economiza no supermercado, está suando para dar educação aos filhos e sobre aquela viagem de férias... bem, fica para depois, muito mais importante é ter saúde, pois os remédios estão caríssimos! Contudo, seus impostos são descontados religiosamente e é ele quem aperta o cinto quando o governo pede mais sacrifícios, aumentando os tributos se precisa de mais dinheiro para salvar os banqueiros, patrocinar caravanas e honrar sua folha de pagamento.
Vemos que a tradução para nós, homens médios, se resume em uma conhecida indagação: Quem vai pagar a conta? Esperamos que o governo, representação dessa maioria composta por nós, e os meritíssimos juízes, data venia, observem que não há ato do Príncipe que justifique que mais uma vez, o ônus dessa farra recaia sobre quem nunca pode aproveitar os bônus.
- CLAÚDIA PROCHET é Advogada no Rio de Janeiro - RJ

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