De todas as virtudes de nossa alma lusitana, a mais sensata é a esperança. Há séculos esperamos um D. Sebastião, infante desaparecido nas Cruzadas, que nos guie neste emaranhado de injustiças, elemento de nossos dias. Movidos pelo calor do rio Tejo que corre em nossas veias, lançamo-nos além do Bojador e além mundo pelo simples prazer de ir além da dor e testarmos o que temos de mais precioso: essa esperança cavalar nas coisas, pessoas e na vida.
Cansados de tentar dar uma definição suficiente e satisfatória para a vida, objetivo que mesmo na ciência se mostra impossível, a filosofia ocidental se viu obrigada a desenvolver conceitos para bem vivê-la, ou suportá-la, entre o nascer e o morrer. Esse desvio do pensamento, pautado puramente na impossibilidade de entender o que vem antes e o que vai depois, livra-nos aparentemente da angústia de vivermos sem esperança. Do contrário, viver seria somente isto: angústia.
E a alma portuguesa, mais do que qualquer outra, ronca por sobre esta maneira de pensar: ‘‘Dorme que a vida é nada’’, nos ordena Fernando Pessoa, o mais cético dos escritores portugueses, pois nem o durante vale ser pensado.
José Saramago, mais ameno, encampa a filosofia da qual vos falo, ‘‘pois quem nasce não vem falar da barriga da mãe e quem morre não fala depois de ter entrado na barriga da terra’’. Camões preocupava-se com a brevidade da vida e, impotente contra a sua própria decrepitude cantava: ‘‘Foge-me pouco a pouco, a curta vida, se por acaso inda é verdade se inda vivo’’.
Nossos calendários derretem-se no dia-a-dia e os minutos escapam pelos vãos de nossos dedos. Pior ainda, os ponteiros do relógio nos apontam, não o que já passou, mas o pouco que falta.
E nesse Brasil, terra que segundo a lenda nasceu Deus e os descendentes dos portugueses, há esperança para as horas que nos faltam? Uma boa pergunta para o governo Fernando Henrique responder. Com suas últimas medidas econômicas, ele nos diz que até a entrada do novo milênio, e quiçá durante e depois, nada seremos, nada cresceremos, pelo contrário, vamos regredir. O país vai amanhecer no ano 2000 como amanheceu no dia 1º de janeiro de 1998: tão pobre quanto, tão indigente quanto, tão inculto quanto. Seremos até lá pura angústia, por não termos o que nos é caro, a esperança herdada dos lusitanos.
Muitos dirão que é demasiado pessimismo para uma sexta-feira 13. Não. É só parar e analisar o que vem ocorrendo nos últimos dias. Os gigantescos cortes no Orçamento da União (R$ 8,7 bilhões na área social) não é coisa que possa ser escondida, ou ignorada. O povo cada vez mais doente, continuará sem leito no hospital. As estradas, as que não foram privatizadas, continuarão como estão, puro buraco. Formaremos mais alguns milhares de analfabetos - figuras ótimas em tempo de eleição, porém anacrônicas e dissonantes com este final de século. E os famintos - famélicos, como se diz em Portugal - continuarão a colaborar com a formação de uma subespécie do homem. Entretanto, o que nos enoja mesmo, é saber que este dinheiro está sendo drenado do país para satisfazer a usura internacional.
Não obstante estas desgraças todas, porque pouca seria bobagem, temos ainda esse simulacro de escândalo, envolvendo além de Fernando Henrique, os ministros da Saúde José Serra, o ex-ministro das Comunicações, Sérgio Motta - já falecido - e o governador reeleito de São Paulo, Mário Covas, todos com uma suposta e pançuda conta num reluzente paraíso fiscal.
Estamos, portanto, impossibilitados de dar andamento ao ‘‘carpe diem’’ que nossa filosofia nos obriga. E, aparentemente, o mar salgado não é somente composto das lágrimas de Portugal, tal e qual nos disse Fernando Pessoa, posto que é muita água para olhos de tão pouca gente. E num espírito fraterno, é mister explicar, que os brasileiros, em decorrência de seus governantes, de há muito acrescentam gotas e mais gotas de desesperança neste Atlântico imenso.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina

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