Das palavras à ação, uma grande distância
Bom se as promessas da candidata Heloísa Helena pudessem se converter em realidade tão facilmente, porque Luiz Inácio Lula da Silva dizia o mesmo na campanha passada, e em seus quatro anos de mandato não realizou nada do que imaginava poder fazer. Falando à multidão de pessoas do campo reunidas domingo em Tamarana (município limítrofe de Londrina), durante a 21 Romaria da Terra do Paraná, a senadora alagoana e postulante à Presidência da República disse que sua meta governamental é assentar 1 milhão de famílias na atividade rural. Com toda a certeza não lhe faltam boas intenções, e não se pode afirmar que não deseje fazê-lo se guindada ao poder, mas as coisas não acontecem sem que se revire este país de ponta-cabeça. Porque os entraves são muitos e, em clima de corrupção e do assédio por barganhas que se vive hoje, um governante tem de jogar com maestria, sem deixar-se corromper e sem que o sabotem. Lula pensava que apenas com palavras iria fazer tudo, inclusive a reforma agrária agora defendida por Heloísa Helena, e mais os 8 milhões de empregos prometidos e que seriam criados por via de políticas de desenvolvimento. Nem as políticas e nem os empregos aconteceram. Mas por conta da Bolsa-Família, os muitos carentes deste país poderão pender a balança em favor da reeleição para comprovar-se que, se tantos eleitores dessa condição existem, é porque o atual Governo não os emancipou e eles continuam como eram. O advento desse benefício, que sem dúvida vai beneficiar Lula nesta eleição, é também um dedo em riste contra ele. Bom que a candidata do PSol pense na agricultura familiar tocada pelo pequeno e médio produtores, mas se em seu discurso em Tamarana ela mencionou, em tom de desafio, que a China ''produz seis vezes mais grãos que o Brasil'', não deve desprezar a produção em escala se deseja superar aquele país. Porque candidatos da esquerda extremada continuam com o velho discurso de culpar os grandes produtores como se eles fossem nocivos à pátria. É o contrário o que ocorre, porque eles são grandes benfeitores. Um governante sensato precisa governar com os grandes, com os médios e com os pequenos empresários em todos os seus segmentos adotando políticas de proteção a toda essa cadeia. Quem pensa em governar apenas com os pobres os empobrecerá ainda mais e enfraquecerá os fortes, que não podem ser dispensados. Pequenas propriedades e latifúndios são necessários. Um pode conviver com o outro, ademais num país como o Brasil de grande extensão de terras. Uma reforma agrária se faz sem destronar os que já estão produzindo, não importa o tamanho de suas glebas. Acredita-se num sincero ideal da candidata-mulher, conhecedora da realidade brasileira e combativa em seus discursos, mas os Poderes estão contaminados por forças desagregadoras muito poderosas, que defendem interesses e não tornam tão fáceis as coisas. Está no seu papel a candidata ao apregoar seus programas de governo. Mas será preciso, no Brasil, mais do que promessas e sim projetos consistentes e convincentes. Neste país, primeiro será preciso ir expurgando todo o sistema governamental, o que passa pelo processo eleitoral e depois pela cobrança e mobilização dos cidadãos. Sem a participação do povo, todas as promessas e boas intenções serão vãs. Melhor se os candidatos fossem mais sensatos e declarassem apenas que, uma vez no poder, irão empenhar-se mas fazer apenas o que lhes será possível. Não se garante que isto renderá votos, mas ao menos o jogo seria mais limpo.





