Das mesas de negociação para a realidade
As conversas para o Acordo Mercosul-UE viraram uma novela diplomática por causa da resistência de agricultores de alguns países europeus
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sábado, 17 de janeiro de 2026
As conversas para o Acordo Mercosul-UE viraram uma novela diplomática por causa da resistência de agricultores de alguns países europeus
Folha de Londrina 
Após 25 anos de negociações, a assinatura do Acordo Mercosul-União Europeia prova que em tempos em que o protecionismo e isolamento ganha voz, ainda há espaço para o multilateralismo, integração, oportunidades mútuas e abertura comercial.
O pacto será assinado neste sábado (17), em Assunção, capital do Paraguai. Na sexta-feira (16), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, se encontraram no Rio de Janeiro e saudaram o iminente acordo de livres comércios entre os dois blocos.
Em declaração à imprensa, Lula afirmou que o entendimento entre os dois blocos é "muito bom, sobretudo, para o mundo democrático e para o multilateralismo". Von der Leyen declarou que o acordo "envia uma mensagem contundente: este é o poder da cooperação e da abertura. (...) E é assim que criamos verdadeiras oportunidades".
União Europeia e Mercosul representam 30% do PIB mundial e abrangem um mercado de mais de 700 milhões de pessoas. A assinatura em Assunção contará com as presenças dos presidentes do Paraguai, Santiago Peña, do uruguaio Yamandú Orsi e do argentino Javier Milei.
Lula não participará do encontro. Segundo o governo brasileiro, a assinatura foi inicialmente planejada como um evento em nível ministerial, e Assunção reuniu os presidentes da última hora.
A negociação pelo acordo foi uma verdadeira novela diplomática e enfrentou a resistência de agricultores e pecuaristas de alguns países europeus, que se mobilizaram em fortes protestos contra a assinatura. Esses setores veem com temor a chegada de produtos dos países do Mercosul, mais competitivos devido a normas de produção consideradas menos rigorosas. No Parlamento Europeu, cinco países votaram contra: França, Polônia, Áustria, Irlanda e Hungria.
O acordo cria uma das maiores áreas de livre comércio do planeta, com um mercado de 22 trilhões de dólares. Para os países do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai), abre-se a possibilidade concreta de ampliar exportações, agregar valor à produção e acessar um mercado altamente exigente, que pode funcionar como indutor de modernização tecnológica, melhoria de processos e fortalecimento de cadeias produtivas.
Para os 27 países da União Europeia, o tratado amplia oportunidades para suas indústrias, especialmente nos setores de máquinas, automóveis, fármacos e serviços.
Na última quinta-feira, o vice-presidente do Brasil e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, comemorou o pacto: “Em um momento de instabilidade política, de geopolítica com guerras em vários lugares, de protecionismo exacerbado, você dá o exemplo de que é possível, através do diálogo e da negociação, fortalecer o multilateralismo e ter livre comércio”.
É preciso reconhecer, contudo, que o acordo também impõe desafios. As barreiras ambientais, sanitárias e trabalhistas europeias são rigorosas e exigirão dos países do Mercosul políticas públicas eficazes, fiscalização séria e compromisso real com a sustentabilidade. O debate ambiental, em especial, deixa de ser apenas um tema ideológico e passa a ser um fator econômico decisivo para a competitividade internacional.
Duas décadas depois, o acordo deixa as mesas de negociação para se tornar realidade. O sucesso dependerá muito da capacidade dos países envolvidos de transformá-lo em oportunidades concretas para suas sociedades.
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