No século XIX, o cientista inglês Charles Darwin (1809-1882) percorreu o mundo a bordo do navio Beagle, para estudar a natureza. A partir dessas pesquisas, ele realizou um trabalho científico monumental, que revolucionou a biologia. Conhecida como a ‘‘Teoria da Evolução’’, ou ‘‘Teoria da seleção natural das espécies’’, ele demonstrava, em síntese, que os seres vivos mais preparados e adaptados para enfrentar as dificuldades da luta pela vida sobreviveriam, enquanto os outros seriam lentamente eliminados do planeta, por um processo de seleção natural.
Um fato bastante eloquente e ilustrativo ocorreu no século passado, nos arredores de Londres. Naquela época, a população de um certo tipo de mariposas (espécie de borboleta) era constituída predominantemente por indivíduos de asas claras, embora entre elas se encontrassem algumas de asas escuras. Essa diferença ocorria porque os troncos das árvores eram recobertos por um certo tipo de vegetais, os líquenes, que lhes conferiam uma coloração branco-acinzentada. Dessa maneira, as mariposas de asas claras ficavam camufladas quando pousavam nesses troncos, enquanto as de asas escuras permaneciam visíveis e expostas aos ataques dos pássaros predadores. À medida que a industrialização provocou um aumento de resíduos poluentes gasosos, os troncos das árvores passaram a ficar escurecidos, como consequência da morte dos líquenes e do excesso de fuligem. Daí, a situação se inverteu e as mariposas de asas claras ficaram mais visíveis e expostas aos pássaros, passando a haver então, maior predominância de mariposas de asas escuras.
Realizados há mais de 150 anos, estes estudos parecem estar ainda atuais e abrangentes, e podem ser aplicados com sucesso em nossas vidas. A proposição deste texto portanto, é tentar discorrer uma analogia desses estudos com um dos temas mais discutidos atualmente: a globalização.
Globalização é uma palavra criada há pouco tempo, e que ainda não foi incluída nos dicionários. Porém, é um processo já antigo, que se iniciou no século XV, com o advento da expansão marítima européia, que deu início à interligação entre os continentes. A diferença entre a antiga globalização e a atual, é a velocidade das transformações causadas por ela. Enquanto no século XV as transformações caminhavam com a lentidão de suas naus, hoje acompanham a surpreendente rapidez e abrangência da internet. Portanto, não há nada de novo. Apenas foi batizado hoje um processo nascido 500 anos atrás.
O Brasil já sofreu bastante e ainda sofre com este processo. Na época do descobrimento, o Brasil-colônia perdeu o monopólio internacional do açúcar para os holandeses, que com os conhecimentos adquiridos no Brasil, aliados a técnicas avançadas, conseguiram diminuir custos, produzir mais e vencer a concorrência. Mais tarde, no século XVIII, a Revolução Industrial inglesa liquidou o monopólio comercial português sobre o Brasil-colônia, fato que consequentemente enfraqueceu a metrópole e influenciou o processo de emancipação política do Brasil.
No mesmo século, a Revolução Francesa fez minar os regimes absolutistas do planeta. A 1ª Guerra Mundial (1914 a 1918) por sua vez, causou no Brasil desemprego, carestia, baixa nos salários e paradoxalmente, um surto industrial. Dez anos mais tarde, a Crise de 1929, que teve como epicentro os Estados Unidos, abalou o mundo inteiro, causando falências, desemprego em massa e atingindo duramente países pobres como o Brasil. Pode-se observar nesses fatos, que desde aquelas épocas já havia uma interligação entre os países, que fazia os acontecimentos em uma certa nação influenciar sobremaneira as outros.
A globalização é necessária e real. Não há volta, e nem mesmo devemos querer retroceder. Ela traz progresso, que gera qualidade de vida e evita o retrocesso tecnológico, fazendo as empresas nacionais modernizarem-se e tornarem-se mais competitivas internacionalmente, refletindo também num maior controle da inflação. Porém, suas regras são duras e inflexíveis, e por isso é preciso ter cautela e estrutura para recebê-la. Ela pode produzir o bem ou o mal nos países. Os investidores e especuladores que injetam montanhas de dinheiro em um país são os mesmos que os tiram sem piedade. Se a economia vai bem o capital especulativo fica; se vai mal escoa rapidamente. Portanto, devemos estar prontos para globalizar.
Como disse Darwin, os mais preparados e adaptados para enfrentar as dificuldades da luta pela sobrevivência, serão os vencedores da grande batalha que é a vida. Se o tronco das árvores torna-se escurecido pela fuligem e o meio em que vivemos muda, e está mudando cada vez mais rápido, nós devemos estar prontos para mudar também. Caso contrário, seremos mariposas de asas claras, e o processo de globalização - o então pássaro predador - nos engolirá.
Preparar-se para a globalização implica em educar-se. Neste processo a educação é fundamental, imprescindível, importantíssima. O grau em que ela está embutida em uma nação é que vai determinar se esta está ou não pronta para globalizar-se. Ela produz mão-de-obra qualificada, e esta gera tecnologia para exportação. Somente com esta tecnologia poderemos ter sucesso e competitividade no mercado internacional. São as regras de qualquer mercado.
É necessário pois, se quisermos globalizar com sucesso, priorizar e investir na educação do ser humano, pois é ele o único ser que tem o poder de promover transformações e revoluções. Somente assim estaremos fadados ao sucesso e caminhando rumo à dignidade.
- MARCOS HEIDY GUSKUMA é acadêmico de Odontologia em Londrina

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