Dar uma chance ao Menino Jesus
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 06 de dezembro de 1996
Walmor Macarini 
Quando queremos debochar de alguém pela ingenuidade dizemos que ele é daqueles que ainda acreditam em Papai Noel. Porque não há uma única pessoa que conserve a crença nessa figura, logo que chega à idade da razão. E por que isto acontece? Porque Papai Noel não tem consistência, não tem origem, não tem sustentação. Mas os pais, as escolas, a mídia, as pessoas, ensinam desde cedo às crianças o culto a esse Velhinho. Quando dezembro chega já começamos a perguntar-lhes: Neste Natal o que é que você quer ganhar do Papai Noel?
E dá-lhes Papai Noel! Na televisão, nas lojas, nas ruas, dentro de casa. Tem até pai que se fantasia de Papai Noel para distribuir os presentes. Sabem em reverência a que? Ao dia 25 de dezembro, quando, em Belém da Judéia, numa manjedoura, nasceu Papai Noel... Ele já nasceu encorpado, barbudo, vestindo roupas vermelhas, calçou suas botas e saiu com um saco às costas, cheio de presentes.
Mas foi isto? Mentirinha. Para os que não sabem, quero fazer uma revelação, que peço guardá-la em segredo profundo, bem dentro do coração: nesta gloriosa noite de 24 para 25 de dezembro quem nasceu foi o Menino Jesus!
Por que então reverenciar Papai Noel, ganhar presente de Papai Noel, se quem faz aniversário no Natal é Jesus? Ele é a razão da festa e de todas essas luzes!
Neste ano, então, vamos fazer diferente: não precisamos hostilizar o Velhinho, mas vamos homenagear o Jesus Menino. Se ganharmos presentes, será bom. Mas por que, ao invés de só receber, não damos um presentinho a esse nenem que nasceu, se fez homem e há quase dois mil anos nos contempla e nos ampara? E como vamos presenteá-lo? Homenageando-o e reverenciando-o!
Nas nossas casas, nos nossos jardins, nas lojas, nas praças, nos nossos corações, vamos colocar não a figura de um Papai Noel, mas um presépio. Com a imagem do Menino, da mãe Maria e do pai José, do burrinho, de pastores, ovelhas, camelos, dos Reis Magos, que são figuras reais da epopéia do Nascimento. E passar a mudar a pergunta às crianças: Neste Natal o que você quer ganhar do Menino Jesus?
Papai Noel não encarna nenhuma divindade, então não tenhamos, ao aposentá-lo - ele que já está tão velhinho - receio de estarmos cometendo uma heresia. Aos povos que o cultuam, por alguma tradição (que com toda a certeza não se vincula ao nascimento de Jesus), os nossos respeitos. Mas se em Belém não havia pinheiros cobertos de neve não temos que enfeitar nosso Natal com esse tema. Se naquela região não havia renas nem trenós, não precisamos vincular esses (dóceis) animais e esse meio de transporte às celebrações natalinas. Nós herdamos isto de culturas européias, porque na Europa cai neve no Natal, as renas (e cães) puxam trenós, os pinheiros estão cobertos de neve. Mas o Menino Jesus não nasceu na Europa!
Papai Noel não se sustenta na cabeça de nenhuma criança depois que ela chega aos 12 anos, e na maioria já aos 10. Então por que criar nelas essa fantasia? Já Jesus não é nenhuma fantasia, ele perdura, porque é real. Se Jesus é que é a realidade, por que não começarmos a ensinar nossas crianças a cultuá-lo já a partir da noite de Natal? Por que temos que substituí-lo por um velhinho de roupas vermelhas e barbas longas? Há lares - a maioria - onde nesta noite de 24 para 25 de dezembro, no momento da ceia e da troca de presentes, Jesus Menino ou o Jesus Mestre nem sequer são lembrados. É só comer, beber, dar e ganhar presentes e louvar Papai Noel com palmas e vivas. Famílias há que não fazem assim, é verdade, mas bem poucas. Já nos Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul o povo do interior não conhece Papai Noel, mas só o Menino Jesus. E ao invés de bebedeira, comilança e essa obsessão por presentes, faz ceias repletas de religiosidade, reunindo todos os familiares, e à meia-noite vai à igreja - enfeitada com o presépio e anjos soando trombetas - para a missa do galo - não em homenagem à ave mas porque essa celebração começa tarde e se estende até avançada hora da madrugada, quando o galo quase está cantando. O Menino Jesus é quem traz os presentes, montado no burrinho puxado por José, e no colo da mãe Maria. Por isso as crianças, lá, ainda hoje, na noite de Natal colocam pratos sobre a mesa, com capim e milho para o burrinho, vão dormir e no dia seguinte encontram ali o presente do Menino de Belem.
Os adultos perguntam aos pequenos: Neste Natal o que você quer ganhar do Menino Jesus?
Uma bela tradição!
Eles também vêem televisão mas não se deixam seduzir pela figura do Papai Noel.
Se as lojas desejam promover vendas, no Natal, Jesus não é contra. Se houver fé e Ele for convocado, com toda a certeza até ajudará. Mas então por que não enfeitar as lojas com presépios, em sua homenagem? É muito mais bonito ver aquela meiga figura da Manjedoura do que Papai Noel, símbolo de um bom velhinho mas que muitas vezes assusta as crianças. Já o Menino deitado no bercinho de palha deleita os pequenos, porque eles se identificam, sentem-se semelhantes.
Ao invés da Casa do Papai Noel, como fizeram em Londrina (e louve-se a boa intenção!) por que não a Casa do Menino Jesus? Ao invés de renas e trenós estilizados, por que não Maria e José chegando montados num jumento, como historicamente aconteceu?
No ano que vem podemos fazer diferente!
E neste Natal vamos dar uma chance ao Menino Jesus!
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


