Dar limites não é pecado
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de maio de 2012
Aline Vilalva <br> Reportagem Local 
Educar não é tarefa fácil. O maior problema para pais e professores é que não existe receita pronta. Cada contexto tem suas peculiaridades e é preciso ter sensibilidade para perceber a melhor forma de lidar com as crianças e jovens.
O desafio aumenta na proporção em que cresce o número de compromissos cotidianos e o tempo para dar conta de tudo é cada vez mais escasso. Mas é possível driblar tantas dificuldades e ser um bom educador? Como agir para impor limites aos filhos e alunos sem ficar com fama de ditador?
Questionamentos como estes fazem parte da rotina de muita gente. E foi com o objetivo de esclarecer esse tipo de dúvida que a pedadoga, escritora e conferencista Maria Augusta Sanches Rossini, de Londrina, lançou nessa semana o livro ''Limites com Severa Doçura'', pela Editora Vozes.
A obra traz uma série de perguntas delicadas e polêmicas sobre educação que a autora colecionou em mais de 40 anos de experiência no magistério. São contemplados temas como violência, drogas e mentira. E apresentadas sugestões de procedimentos que já foram experimentados com sucesso em vários casos. A ideia é que possam servir de inspiração, para que pais e educadores possam tomar medidas que vão ajudar na formação do caráter das crianças e dos jovens.
''Se não dou limites, vou tirar da experiência da criança a experiência da frustração. Se não passar pela frustração, ela vai ser um adulto com dificuldade de sentir prazer na vida, não vai saber se adequar à convivência em grupo, tudo terá de ser do jeito dela e terá comportamentos tiranos. Os limites garantem que os filhos não caiam no mundo das drogas, da violência e da mentira'', alerta Maria Augusta, que também é autora obras como ''Pedagogia Afetiva'', ''Aprender tem que ser gostoso'', ''Educar para ser'' e ''Alfabeto Corporal''.
Como colocar limites nas crianças e jovens sem ser autoritário?
O primeiro passo consiste em diferenciar limite de castigo. É importante mostrar para a criança que é uma manifestação de amor e cuidado que, em um primeiro momento, é difícil de aceitar, principalmente quando o objeto de desejo é negado, mas é necessário. Para estabelecer limites, o educador deve começar apontando que há regras para tudo e que elas, muitas vezes, existem para nossa própria proteção. Temos que trabalhar os ''combinados'' com as crianças, que são as regras de convivência. Não é só negar, mas participar da formação do ser humano em desenvolvimento, mostrando que toda ação tem uma consequência.
Nós vivemos, há pouco mais de 30 anos, uma realidade conhecida como autoridade manifesta, na qual o pai mandava e o filho obedecia sem questionar. Há algum tempo, no entanto, passamos para a permissividade total, que adotou o lema: ''proibido proibir''. Hoje, as pessoas envolvidas com educação estão percebendo a necessidade de utilizar o equilíbrio entre essas duas maneiras de educar e retomar os limites.
Onde os pais mais erram na educação dos filhos?
Por medo de traumatizá-los ou perder o amor deles, muitos pais são vítimas dos filhos por não colocarem limites. Eles erram na confusão entre amar e dar de tudo e na compensação que consiste em dar para o filho aquilo que eles não tiveram. É necessário dar, mas comedidamente, tentando fugir dos apelos consumistas da sociedade. Os pais estão perdidos, não sabem como retomar o controle. Neste contexto entra a necessidade de quem trabalha com a educação conscientizá-los de que dar limites não é pecado. Ao contrário, a criança codifica a regra como sinal de amor, pois só quem ama se dá ao trabalho de limitar porque isso é trabalhoso.
É fundamental entender que a felicidade e o futuro dos filhos não dependem de leis e sim do bom-senso e equilíbrio dos pais. A modernidade tem exigido deles uma ausência cada vez maior e ela gera culpa, que vira concessão, se torna direito adquirido e deixa os pais sem força para negar. Mesmo para quem fica pouco em casa é necessário dizer não, dar limites. Ficar mais tempo com os filhos é mais importante que dar coisas materiais. E esse tempo não implica em quantidade, mas sim em qualidade, que está ligada à disponibilidade, ao estar de verdade e isso não precisa, necessariamente, ser o dia todo.
O que significa educar com severa doçura?
É ter coragem de dizer não, justificando quando os filhos são maiores o porquê do não e explicitando que é por amor. Quando negar alguma coisa e a criança espernear e fizer birra, deixe passar. Não mande engolir o choro, porque ela tem de colocar a angústia para fora. Passado aquele momento, pare e tenha um toque físico, que é muito importante em todas as idades. Além disso, sempre que o pai for repreender, deve dizer que gosta do filho, mas não gosta do que ele fez, sem xingá-lo, para separar as coisas, a fim de que a criança ou o adolescente entenda o amor incondicional. Também é necessário comemorar cada sim.
De que maneira a educação na infância ou na adolescência reflete na fase adulta?
De todas as maneiras. Oitenta por cento do ser humano se forma de 0 a 7 anos de idade e é muito importante que nesta fase existam pessoas que reconheçam as características da etapa em que as crianças se encontram porque existem coisas básicas que os pais não sabem sobre o desenvolvimento humano. As crianças dão mostras de todas as características das fases pelas quais estão passando e precisamos fazer esta leitura para entrar na realidade delas e fazer a conexão com os filhos.
Se não dou limites, vou tirar da experiência da criança a experiência da frustração. Se não passar pela frustração, ela vai ser um adulto com dificuldade de sentir prazer na vida, não vai saber se adequar à convivência em grupo, tudo terá de ser do jeito dela e terá comportamentos tiranos. Os limites garantem que os filhos não caiam no mundo das drogas, da violência e da mentira.
Por que as crianças perdem o respeito pelos pais e passam a desobedecê-los?
Porque os progenitores não sabem fazer as leituras das características da alma da criança e da alma dos jovem, por exemplo. Não adianta querer que o pequeno, de 0 a 5 anos, fique quieto numa cerimônia religiosa. É doce ilusão porque não é caracaterístico da fase em que ele está. Para identificar as especificidades de cada etapa é necessário que os pais contem com o auxílio de profissionais, mas que também busquem informação por meio de palestras e outras formações.
E o que fazer quando identificar que estão ocorrendo falhas na educação?
Os pais podem ser proativos ou reativos e aí já definimos se há falhas. O proativo é aquele que age, que tem disponibilidade de ouvir, que sabe elogiar e tem consciência das características da fase pela qual o filho está passando. Ele gera um vínculo muito positivo com o filho, enquanto o reativo é diferente. O que ele consegue de reação do filho são guerras verbais e afastamento emocional que pode ser percebido desde que a criança é pequena.
Tem como corrigir o erro?
Sempre dá para corrigir. Perceber e entender que precisa fazer alguma coisa diferente já é meio caminho andado. Mas o pai reativo não percebe porque ele sempre se acha a vítima e o filho é aquele que suga até a última gota de sangue dele, e isso gera o afastamento do filho, em qualquer idade. Até pela postura corporal da família é possível identificar quem tem vínculo afetivo e quem não tem.
De que maneira os educadores podem lidar com essa diversidade de realidades?
Ninguém mais do que o educador tem a obrigação de saber fazer essa leitura de cada aluno. Quando você recebe uma criança na porta da sala de aula, junto vem todo um mundo que é só dela. Vêm as tensões familiares, o estresse, as decepções, as expectativas e os sonhos. É aí que devemos perceber em cada um os seus valores e, apesar disso, amá-los.
A Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) aponta quatro pilares básicos da educação: educar para ser, educar para conviver, educar para conhecer e educar para fazer. Muitos problemas estruturais da sociedade estão ligados ao segundo pilar, que está intrinsicamente ligado às regras de convivência.
Qual é a principal proposta do ''LSD'' - Limites com Severa Doçura?
É a conscientização das necessidades que temos hoje de estabelecer limites. O meu primeiro livro, ''Pedagogia Afetiva'', tem um capítulo que aborda a questão dos limites e por causa disso as pessoas começaram a me questionar bastante sobre o tema por e-mail e em congressos. E a partir disso fui guardando as perguntas ao longo destes anos. Por isso, os temas são bem diversificados, tratam de relações afetivas, mentira, violência, más companhias, drogas, masturbação, mesada, tarefas de casa, a importância do brincar, imaginação infantil, ler para os filhos, a escolha da escola, entre outros. É uma conversa com os educadores, são relatos com base em experiências variadas que deram certo e que devem ser compartilhadas porque são temas que angustiam pais das mais diferentes idades. A obra é voltada para pais e educadores de pessoas em desenvolvimento de qualquer idade.
Quando as pessoas se casam, elas imaginam o nascimento do bebê, fazem o enxoval, mas se esquecem de que ele vai crescer e virar uma criança, um adolescente e um adulto. É necessário saber lidar com isso. Hoje em dia, as relações da sociedade estão cheias de ''ex'', de ex-marido e ex-mulher. Mas não existe ex-pai, ex-mãe e ex-filho e é fundamental estar preparado para lidar com tudo isso. A criança que experimenta a fórmula do ''Limites com Severa Doçura'' não vai procurar outras drogas na adolescência.


