Os dados do Censo 2000 revelaram que, de fato, está havendo uma profunda mudança de valores em nossa sociedade. Os números mostram transformações significativas na estrutura das famílias, e no aspecto religioso, pela primeira vez detectou-se uma queda de influência da Igreja Católica em nosso país.
Segundo reportagem de Fernanda da Escóssia, da Folha de São Paulo (09/05/02), ‘‘os católicos apostólicos romanos perderam terreno, mas ainda são maioria: somam quase 125 milhões de brasileiros e representam 73,8% da população. Em 1991, os católicos eram 121,8 milhões de pessoas e representavam 83,76% dos brasileiros. A proporção de católicos no total da população caiu, portanto, 11,9%’’.
O que o IBGE constatou, na realidade, já vem sendo perceptível em nosso cotidiano. Vivemos tempos de profunda crise religiosa. Há, inclusive, uma crise do ‘‘sentido de Deus’’, que leva, por sua vez, a uma crise do ‘‘sentido da vida’’. Cresce o número de pessoas que buscam expressões de fé que acenam com a prosperidade material, como se a felicidade definitiva ou o céu devem ser conquistados em sua plenitude aqui na terra, com a posse de bens materiais, status e poder. Vai se obscurecendo a noção fundamental da fé cristã de ‘‘vida eterna’’. Muitas pessoas vivem o aqui-e-agora, numa espécie de corre-corre atrás de sensações fugazes, muitas vezes dizendo ter fé, mas o que possuem mesmo é um desespero que não conseguem explicar, nem entender. ‘‘Um ateísmo prático antropocêntrico, a indiferença religiosa apregoada, um materialismo hedonista agressivo marginalizam a fé como algo evanescente, sem consistência nem pertinência cultural, no seio de uma cultura prevalentemente científica e técnica’’ (Conselho Pontifício da Cultura).
Os próprios ‘‘estilos de vida’’ da pós-modernidade contrariam de forma evidente os mais caros princípios cristãos. Perde-se também o exercício das práticas devocionais, contextos adequados para a contemplação, meditação e oração.
A Igreja Católica não está desatenta a tudo isso. Em diversos documentos vem refletindo sobre a crise espiritual dos nossos dias. Tem o diagnóstico, mas não tem modelos a propor. Em meio a toda essa convulsão, sabe que o Espírito Santo a guia e não fará com que sejam abalados os seus alicerces. A apostasia geral é, inclusive apontada no Catecismo da Igreja Católica, como uma das duras provações que a Igreja terá de enfrentar no cumprimento de sua missão no mundo. ‘‘Antes do advento de Cristo a Igreja deve passar por uma provação final que abalará a fé de muitos crentes. A perseguição que acompanha a peregrinação dele na terra desvendará o ‘‘‘mistério de iniquidade’ sob a forma de uma impostura religiosa que há de trazer aos homens uma solução aparente aos seus problemas, às custas da apostasia da verdade’’ (675).
A situação atual, portanto, de crescente apostasia, está indicada no próprio Catecismo. Os que souberem discernir, saberão ser perseverantes. É promessa de Cristo de que as portas do inferno não prevalecerão sobre sua Igreja. Ela vencerá o mundo.
VALMOR BOLAN é doutor em Sociologia e diretor-geral da Faculdade Editora Nacional (Faenac), de São Caetano do Sul (SP)

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