Da vida tudo se leva
Walmor Macarini
Entre as filosofias dos cemitérios, a mais ouvida no Dia de Finados é que da vida nada se leva, mas é prudente não confiar muito nesse conceito, porque, na verdade, da vida tudo se leva. Ao transpor o portal desta para a outra, nossas riquezas e pobrezas irão conosco. Porque, o que são elas senão um estado de memória? Se somos ricos, não carregamos nos ombros as propriedades que temos nem levamos nos bolsos todo o volume do nosso dinheiro. Carregamos, sim, os registros mentais daquilo que temos e do que não temos, do que fizemos e do que deixamos de fazer, do que somos e do que não somos. Estes registros vão conosco e conosco ficam.
E se, em vida, não houvermos conseguido compreender a real finalidade dos nossos bens, das nossas virtudes e das nossas imperfeições, e não aprendido a administrá-los com maestria, como esperamos chegar ao estado de plena clarividência apenas pela simples passagem da morte? O que morre é apenas o corpo físico, porém os registros nós os carregamos todos, porque eles são nossa bagagem de consciência.
Se somos muito ricos e apegados à riqueza, continuaremos apegados a ela, vigiando-a e preocupados mais ainda, porque vendo-a manipulada por mãos estranhas. Se somos ricos e não apegados à riqueza, então continuaremos desapegados, levando conosco esse desapego. Se, em nossa vida, granjeamos riqueza e através dela semeamos mais riqueza, beneficiando a muitos, e conscientes de que esta é a função da riqueza, levaremos conosco essa bagagem. Aí podemos dizer que passamos desta para a melhor... Se, por preguiça e conformismo, temos preferido a pobreza – e pobreza material viciada é sinônimo de pobreza espiritual – levaremos esse fardo conosco e aí passaremos desta para a pior, ou no mínimo para a mesma...
A morte física não é uma graduação, como algo que nos habilite a sair, a um passo, do estado de ignorância para o de plenitude do conhecimento. Fosse assim, não precisaríamos aprender com a vida; bastaria deixarmos tudo rolar e esperar a morte...
Da vida levamos até nossas doenças, físicas e morais. Precisamos, também lá ‘‘no outro lado’’, continuar curando-as, se acreditarmos que podemos curá-las; ou ‘‘acariciando-as’’ com nossas crenças equivocadas, se for do nosso arbítrio. Nossos vícios e virtudes nos acompanham. ‘‘Este descansou’’ – dizemos de alguém que está indo. Descansou quem já estava descansado aqui, no sentido de sereno, consciente; senão continuará cansado...
A morte não é um salvo-conduto que nos qualifica a entrar em todas as portas, eis que salvo-conduto idêntico já temos aqui, e abertas estão todas as portas; mas se não temos consciência disto, não será pelo portal da morte que iremos, de pronto, adquiri-la. O tempo que levamos aqui, para aprender, é o mesmo que levaremos lá. E se muitos de nós levamos toda a vida sem nunca aprender, ou aprendendo muito devagar, então não tenhamos ilusões pois será ‘‘assim na terra como no céu’’...
Da vida tudo se leva. Nossas riquezas e pobrezas. Nossos apegos e desprendimentos. Nossas virtudes e imperfeições. Nossas alegrias e atribulações. Saúde e doenças. Amores e mágoas. Iluminação espiritual e ignorância. O que somos aqui seremos lá, com o mesmo grau de compreensão. Apenas mudamos de condição. Se não somos capazes de compreender aqui, não compreenderemos lá. Se somos lentos para despertar aqui, seremos lentos para despertar lá. Se, aqui ou lá, de repente tivermos a graça de vislumbrar a luz, então encontraremos muitas mãos amigas a nos guiar... Mas a luz não chegará até nós se não buscarmos ir ao encontro dela. Lá, como aqui. E onde é lá e aqui? Sempre um mesmo lugar, porque não nos mudamos de nós mesmos, eis que em nossa essência somos não um estado físico como o compreendemos aqui, mas um estado de consciência.
Então, aquilo que esperamos que nos aconteça lá, por que não começamos a ir fazendo aqui?!
A vida terrena é também uma forma de morte, com relação à grande vida – e esta ‘‘morte’’ é uma rica oportunidade de crescimento – então não podemos desperdiçá-la, nem situar a morte em patamar algum, porque em verdade ela não existe, assim como o adormecer e o despertar em nossas noites e manhãs não significam morrer e renascer, mas apenas a continuidade da vida.
Temos postergado a busca da espiritualidade (melhor diríamos nosso reencontro com ela) para quando ficarmos mais velhos, que aí teremos mais tempo, eis que agora temos que trabalhar, acumular riqueza, deixar uma boa herança para nossos filhos – como se não tivessem eles a responsabilidade de, na vida adulta, bastar-se por si sós.
Por que essa divisão de tempo, quando poderíamos conciliar desde cedo as duas coisas?! Seríamos, com toda certeza, desde cedo mais felizes. Espiritualidade e riqueza material não são excludentes. Se a riqueza, pelo mau uso, pode levar à exclusão da espiritualidade, o contrário nunca acontece porque a espiritualidade é uma chave que abre todos os caminhos para a prosperidade.
Da vida tudo se leva porque a vida é uma apenas, contínua e perene – não obstante dividida em múltiplas vivências – então o que semearmos pelo caminho será nossa colheita, e de mais ninguém.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina
www.folhaweb.com.br

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