Da liberdade e da legitimidade
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de março de 1997
Constantino Comninos 
A cada ano, mais uma data é comemorada em 25 de março, para júbilo de todos os gregos, os que vivem na Grécia e os que se encontram na diáspora em todos os rincões deste planeta. Data esta, comemorada ontem, que tem dois significados: um religioso, pois trata-se do dia consagrado à Anunciação de Nossa Senhora, e o outro, cívico, pois marca o início da revolução, desencadeada pelos gregos, em nome de sua independência política em 1821.
A liberdade não se consegue de graça. Ela depende da vontade dos homens e das idéias que os norteiam. Uma revolução é um processo de mudança, marcada na maioria das vezes por lutas, produto das insatisfações dos homens, cujos heróis sempre são lembrados pelas gerações futuras.
Seguindo alguns passos que Péricles nos oferece em seu famoso discurso aos heróis de Maratona, quando faz a apologia dos antepassados e não a perda dos soldados naquela batalha, o líder ateniense coloca o papel da República e de seus ideais. O que impressiona nas suas palavras é o destaque que dá à democracia como regime público por excelência e como ideário de humanismo e respeito aos costumes, inclusive os de seus vizinhos, mesmo quando em conflito com eles ou em períodos de paz. Segue Péricles sua alocução na defesa do primado da soberania da nação legitimada, no sentido de justiça, ou seja, no reconhecimento mútuo entre as várias pólis, as cidades-estado que constituíam a civilização grega daquela época. Continua citando o valor que a República deve dar aos magistrados e aos homens de bem, ao tempo em que a nação não pode olvidar os oprimidos, aplicando a lei com justiça a todos os homens. Lembra ainda que a sua cidade sempre esteve aberta a todos os estrangeiros, garantindo a estes os mesmos direitos dentro de suas fronteiras, consideradas pelos gregos como fronteiras humanas, desde que nunca transgredissem as leis vigentes, leis essas proclamadas em assembléia pública.
A base ideológica da ordem política grega clássica se fundamenta na educação integral, diria globalizada, cujo comportamento subordina a política à paidéia. O desaparecimento das cidades-estado gregas ocorreu com o advento do Império Romano - substituído no oriente pelo Império Bizantino -, no qual a religião cristã encontrava-se atrelada à estrutura do poder constituído, sendo que a educação se processava dentro dos postulados do cristianismo, cujas fronteiras tinham como limite os espaços ocupados pelos mosteiros e pelas igrejas paroquiais. Esta é, sem dúvida, uma das vertentes, para não dizer a principal delas, que permitiu o desencadeamento das idéias revolucionárias da independência grega no início do século passado.
Não desejando entrar no mérito das questões históricas que levaram à queda da Constantinopla, a Sublime Porta, em 1453 - baluarte do cristianismo no Oriente - e a consequente ocupação otomana dos últimos contrafortes do Império Bizantino, os gregos, a exemplo de outras nações, e oprimidos não só religiosamente, mas em todos os seus valores culturais por cerca de 400 anos, desejavam institucionalizar seu estado nacional moderno. Toda a opressão leva em contrapartida a vontade de eliminá-la. Seguindo os mesmos caminhos das epopéias vivenciadas pelos gregos de todas as grécias nos milênios civilizatórios que antecederam esse novo fato, os revolucionários de 1821 desencadearam uma luta cujo reconhecimento foi logo legitimado pelas principais nações do mundo.
Para um povo, vivendo em território vulcânico, entremeado por milhares de ilhas, uma das tarefas tão desafiadoras quanto o cenário de suas tragédias consagradas mundialmente vem sendo o mantenimento de suas fronteiras, conquistadas a duras penas ao longo de quase dois séculos. Devido a sua posição estratégica no leste do Mediterrâneo, a Grécia sempre foi um verdadeiro corredor de batalhas, tendo seu povo participado heroicamente dos principais conflitos regionais e mundiais nos últimos anos, envolvido que foi pelas circunstâncias beligerantes de cada momento.
Se o sucesso de uma revolução não é isento de sacrifícios, o mesmo ocorre quando uma pequena nação como a Grécia se faz presente no concerto das nações, defendendo o primado da igualdade democrática e da legitimidade de voto nas grandes decisões mundiais. Mesmo em momentos de desvantagem numérica ou crises maiores, seus líderes e seu povo sempre mantiveram a coragem de seus antepassados no confronto com nações mais poderosas. Daí decorre o fato de a Grécia participar das assembléias mundiais, da União Européia, assim como faz parte de outras organizações de caráter econômico, político e social, o que demonstra o reconhecimento que as outras nações têm pela Grécia moderna.
Cabe a todos nós, gregos e seus descendentes, como Péricles o fez, reverenciar a memória de nossos antepassados por tudo o que eles nos legaram, cujos exemplos heróicos nos ensinaram a viver na diáspora, mantendo nossos valores religiosos e nossa herança cultural.
Estendemos a nossa homenagem a todos aqueles que não sendo gregos amam a Grécia como se o fossem, pois souberam reconhecer no valor dos ensinamentos dos pensadores e na coragem dos nossos heróis a grandeza de seus ideais e a profundidade de suas idéias, que permitiram alicerçar as bases da civilização ocidental.
É um legado do qual todos nós, gregos e seus descendentes, nos orgulhamos.


