O fato de um ato governamental ser legal não significa, apenas por isso, que é conveniente e vantajoso. Visões e entusiasmos de governos, em certo casos, podem ter enfoque distorcido e resultar em problemas futuros. O caso do acordo firmado entre a Sanepar e a Dominó Holding é um deles. A questão é avaliar se tal pacto de acionistas deveria ter sido feito, porque a mesma Assembléia Legislativa que o aprovou, no governo de Jaime Lerner, agora quer anulá-lo no governo de Roberto Requião. E, com base em dados levantados no momento por uma comissão de investigação instalada na Casa, o Ministério Público acaba de ajuizar ação de improbidade administrativa contra o governador Lerner e seu Secretário da Fazenda, Giovani Gionédis. A alegação é que transferiram ilegalmente patrimônio público para o consórcio e permitiram que a holding indique os diretores dos dois mais importantes setores da companhia – o de operações e o de finanças. O que, em linguagem já em desuso mas de práticas ainda presentes, se chama entreguismo, que é a outorga do domínio de empresas a multinacionais e a obediência ao comando de políticas externas. Também a implantação do pedágio foi um ato estribado em lei mas nem por isso conveniente, porque ocorreu aí uma autêntica ação de entreguismo. A venda de 45% das ações da Sercomtel, por administrações anteriores, também foi um procedimento legal mas resultou na diluição do montante originado da venda – ‘apenas’ R$ 186 milhões – ou pelo menos não se deu até agora nenhuma explicação sobre onde foi parar tanto dinheiro público. Voltando ao governo Lerner, até hoje se questiona o teor dos acordos celebrados com as multinacionais da indústria automobilística. O grave dessas coisas é que, à época, e com sustentação legal, a Assembléia Legislativa aprovou tudo, e até com ingênua euforia, como aconteceu quando Lerner anunciou o propósito de ‘privatizar as rodovias’. Privatizar, a não ser certos setores estratégicos, é a boa fórmula, mas o que houve com o pedágio por exemplo foi não privatização mas entreguismo de fato. No caso do acordo com as montadoras ocorreu algo similar, colocando à luz da razão a questão da conveniência ou não de trazer empresas de fora a custo tão elevado para o erário. No momento, acusações e contra-acusações entre os dois governos paranaenses robustecem o noticiário e, no meio, fica o povo, perplexo, tendo de pagar a conta resultante de decisões não convenientemente discutidas a seu tempo.

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