Da fé à paz
V.S. Naipaul mostra, no livro Além da Fé, como é triste viver e crescer num país sem lugares sagrados. Ele, que tem origem na sagrada Índia, embora nascido em Trinidad e radicado há quase meio século na Inglaterra, chegou a essa conclusão depois de visitar por duas vezes a Indonésia, a Malásia, o Paquistão e o Irã. Essas nações, que não têm origem árabe, foram convertidas ao islamismo e hoje veneram Meca e Medina, ambas na Arábia Saudita. Na obra, as pessoas ouvidas por Naipaul (poetas, contadores, microempresários, soldados) relatam mágoas, ressentimentos e medos que a conversão deixou nas suas portas. Vale ressaltar: não é um livro contra o Islã; é contra o fundamentalismo. Que serve principalmente para este instante, quando a virada do calendário cristão traz dúvidas sobre futuro e passado, erros e acertos.
Nós, por exemplo, não temos lugares sagrados, nossa fé é ínfima. Mas e daí? Claro que diante das milenares culturas árabe, persa ou malaia somos adolescentes (falo como País e mesmo levando-se em conta nossa tradição cristã). No entanto, de sagrado, temos a paz. Não a paz que propomos nos brindes de fim de ano ao semelhante, cujo desejo é meramente verbal, automático, de convenção.
Falo aqui da paz que nos faz ser inzoneiros até diante das piores situações. Da paz que, curiosamente, só um estado laico é capaz de oferecer. Da paz que parece jamais chegar ao Paquistão das fardas, preces a Alá e bomba atômica. Da paz que a Indonésia, recuperando-se de traumas de governos corruptos e ditatoriais, ainda não conseguiu. Da paz utópica para o palestino de Gaza, o judeu de Telaviv ou o muçulmano da Caxemira.
Não, não somos aqui na parte de baixo da linha do Equador aquele lugar (quase uma quimera) imaginado por um velho escritor inglês onde um governo organizado dá boas condições de vida a um povo feliz por natureza. Mas somos condescendentes, aquiescentes. Às vezes na cobrança aos governantes, por exemplo até demais. Não somos, graças a Deus, nem mesmo religiosos como o povo do Irã dos aiatolás que V.S. Naipaul visitou. Podemos até nos converter à ortodoxia cabocla do bispo Edir Macedo e das igrejas pentecostais. Mas, aqui, fundamentalismo mesmo só na hora de defender o clube de futebol. Melhor assim.
RENATO FERRAZ é jornalista





