Da brasa à fogueira - Arlete Salvador
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sexta-feira, 05 de março de 1999
Arlete Salvador 
Há uma revolta, por enquanto silenciosa, nas ruas. Uma brasa de raiva queima escondida, mais viva do que nunca. Um vento mais forte e poderá virar fogueira. É o sentimento de que, se não houver alguma atitude por parte do governo para controlar o descalabro econômico no País, ninguém poderá suportar mais a situação.
Empresários, trabalhadores, políticos, gente sem título de doutor ou dívidas em dólares, todos têm em comum um inconformismo crescente. Esse sentimento ainda não tem voz nem bandeira. O senador baiano Antônio Carlos Magalhães, do PFL da Bahia, que é presidente do Congresso, foi o único até agora a verbalizá-lo, embora com o comedimento que sua posição de integrante do governo lhe exige nesse momento.
Em conversas reservadas, o tom é outro. Ausência de governo, incompetência, inércia, indiferença, falta de credibilidade, crise de governabilidade. Seja lá qual for o nome que se dê, dependendo do interlocutor, o certo é que o governo federal está claramente identificado como o único responsável pela tragédia na economia.
O bode expiatório Itamar Franco, governador de Minas Gerais, do PMDB, já não expia os pecados do governo. Ao isolá-lo do processo político, reunindo-se com os demais governadores e deles ganhando apoio, o presidente da República Fernando Henrique Cardoso contribuiu para dar a real dimensão ao personagem.
O ex-presidente da República Itamar já não mete mais medo. Reduzido a um Dom Quixote tupiniquim a lutar contra moinhos de vento imaginários, o governador de Minas já não serve como bode expiatório. Nem os especuladores, esses seres sem nome ou endereço que vez ou outra aparecem no cenário para levar pancada no lombo. A população, de modo simples e verdadeiro, acha que eles existem, mas o que vêem é um governo sem vontade política ou competência para combatê-los.
A indicação de Armínio Fraga para a presidência do Banco Central só fortaleceu essa idéia. Por mais que técnicos e economistas atestem a integridade de Armínio para ocupar o cargo que ocupa, ele está definitivamente associado aos interesses externos no País. Quando se sabe que alguns bancos, a maior parte deles estrangeiros, tiveram lucros este ano superiores aos de 1998 inteiro, a lógica que prevalece é a da vitória do especular hoje e sempre. Por mais que o País sofra, eles estão no lucro.
A elevação das taxas de juros e do preço dos combustíveis, determinados ontem, não mudam o quadro. É o primeiro sinal de movimento do governo nos últimos dias. A mão de Armínio Fraga se fazendo sentir no cargo. Para baixar medidas assim não era preciso trazer ao Brasil o assessor número 1 do megainvestidor George Soros internacional para mercados emergentes. O uso da taxa de juros como instrumento de política cambial é velho conhecido da Rússia e de todos os países asiáticos que tombaram. O próprio governo brasileiro já a usou pelo menos três vezes num passado bastante recente.
Com o lucro dos bancos na altura das estrelas, os salários comidos pela inflação, o desemprego e o aumento generalizado de preços, a brasa da raiva e da indignação começa a arder mais forte. Falta pouco para virar fogueira.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo


