Da arte de governar e ter paciência
Poucos meses após o início de seu governo o presidente Lula pediu paciência ao povo, e veio repetindo esse discurso, sempre que pressionado. Agora, ao fazer o balanço dos 18 meses de sua investidura, ele é que se declara paciencioso e cria uma frase de efeito em torno desse atributo humano o de não impacientar-se e diz que ''a arte de governar é a arte de ter paciência''. Refere-se à própria paciência, que supostamente adquiriu nesse período de experimento à testa na mais elevada função da República.
Se antes era a população que deveria ser paciente, a pedido do presidente, e agora é ele que detém essa virtude, o certo é que os cidadãos já não têm nem esperança de que algo de extraordinário aconteça a partir de Brasília. Pior é quando Lula, à moda FHC, perde o senso da realidade e acha que tudo vai muito bem, como faz agora ao desafiar seus desafetos a que façam um confronto (com relação ao governo anterior) ''em números, realizações e coisas concretas e objetivas'' que diz agora estar acontecendo em sua gestão.
Enquanto detinha-se no pedido de paciência, havia indicativo de que as coisas estavam por acontecer, e se agora declara que é ele que está com a paciência (certamente de suportar os ''mal-agradecidos patriotas'') e conclama a comparações, então imagina que as coisas já aconteceram. Isto é mais grave do que se possa supor, porque todos sabem que pouco ou quase nada aconteceu neste governo, sufragrado pelo povo ante um clima nacional de auspiciosos anseios e grandes esperanças.
Lula recomenda a seus ministros, agora que se inicia a campanha eleitoral, que não fiquem preocupados com as críticas e não permitam que elas ''mexam com a auto-estima'', podendo-se entender como uma recomendação de que não façam caso disso. Se for este o sentido, então significa que as vozes populares e das oposições não devam ser levadas em conta.
Recorda-se que o presidente Fernando Henrique Cardoso tinha a mesma arrogância a de achar que tudo ia bem em seu governo, cunhando com uma infinidade de rótulos pejorativos aqueles que o criticavam.
Ocorre que a hora é de ouvir os clamores que vêm do povo, e com muita atenção, e não o presidente colocar-se em posição de suposta vítima de injustificadas críticas e por isso precisar valer-se da ''arte da paciência'', imaginando-se supostamente um sábio governante ante um ingrato povo que não consegue enxergar as ''coisas concretas e objetivas'' de seu prodigioso governo.





