Custo de vida é maior para a baixa renda
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sábado, 24 de março de 2001
Benê Bianchi De Londrina 
Fazer compra na mercearia da esquina e apelar para a velha caderneta, adiando o pagamento para o início do mês seguinte, é condição de sobrevivência para muitos brasileiros de baixa renda. O único problema é que os preços, nesse caso, embutem juros altíssimos. O que provoca uma situação de injustiça: quanto menor o poder de renda do trabalhador, maior o custo de vida.
Um exemplo simples: na compra de um refrigerante à vista, o preço é de R$ 1,00 na maioria dos estabelecimentos. No crediário da caderneta, sobe para R$ 1,20 20% de acréscimo. Uma diarista residente em um bairro pobre da zona sul de Londrina, que prefere não se identificar para não desagradar o dono da mercearia que frequuenta, conta que paga R$ 3,50 à vista num frango assado, quando tem dinheiro. Mas para não passar o domingo em branco, às vezes tem que pedir para marcar e o preço sobe para R$ 5,00. O acréscimo aí é de 43%.
Nos bairros da periferia, usar a caderneta é rotina entre as donas de casa. Dona Petrolina Santos Menezes, 70 anos, aposentada, conta que já teve que recorrer muito ao fiado para colocar comida na mesa e criar os 10 filhos. Não tinha outro jeito de comer se não fosse no fiado, mesmo sabendo que tudo era mais caro, conta. Hoje, morando sozinha, pelo menos a alimentação é comprada à vista, nos lugares onde os produtos estão mais baratos. Mas ela diz que não se livrou das prestações.
Depois de 30 anos morando na mesma casa, dona Petrolina teve que reformar o imóvel, em condições precárias. Fez as compras numa loja de material de construção e não conseguiu pagar. Resultado: está com o nome no SCPC (Serviço de Proteção ao Crédito). Nem por isso perdeu o bom humor. Com o tempo e fé em Deus pago tudo o que devo. Quem me deve que me pague, e a quem eu devo, que espere, brinca.
O pedreiro Adenilson de Brito, 20 anos e um filho, costuma fazer toda a compra do mês em uma mercearia perto de sua casa, num bairro da zona sul. O dono, diz Adenilson, não cobra juros. O preço das mercadorias, no entanto, chega ao dobro do cobrado em mercados maiores. O leite de caixinha que custa R$ 0,80 em supermercado, lá sai por R$ 1,20. No domingo, meu cunhado foi comprar um refrigerante desses que imita coca-cola e pagou R$ 2,00. Em outros lugares, custa R$ 1,00.
Ele gasta R$ 200,00 por mês na mercearia e calcula que a mesma compra sairia por R$ 130,00 nos supermercados. Vou parar com isso. Quero ver se consigo quitar minha dívida e mês que vem comprar tudo à vista, num lugar maior e com preço melhor.
Donos de pequenas mercearias localizadas em bairros em Londrina afirmam que não cobram juros dos fregueses, mas dizem que muitos itens têm preços maiores mesmo do que nos supermercados. A gente não consegue comprar de caminhão fechado, como as grandes redes. É mais difícil negociar preço e ainda temos que pagar os fornecedores à vista porque também não temos crédito, justifica Elias Basílio, dono de bar.
Com o estabelecimento num bairro de classe baixa da cidade, Elias se confessa desanimado com o fiado. Tenho R$ 17 mil para receber e já perdi as esperanças de que me paguem, diz. A proprietária de mercearia Leontina Geraldo de Oliveira diz que não cobra juros para vender a crédito. Só cobro quando a pessoa não paga na data marcada. Aí tem acréscimo de 5%, afirma.


