CURRÍCULO ESCOLAR - Ensino de música voltará a ser obrigatório
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 21 de abril de 2008
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
Tramita na Câmara dos Deputados um projeto de Lei que anexa a educação musical ao currículo obrigatório do ensino fundamental. A proposta vem sendo defendida desde setembro de 2006 pelo Grupo de Articulação Parlamentar Pró-Música (GAP). De várias audiências públicas realizadas acerca do tema, surgiu um manifesto, apoiado por 84 entidades brasileiras e estrangeiras.
Para o professor Carlos Elias Kater, Ph.D. em Música pela Universidade de Sorbonne e radicado na França, a educação musical nas escolas trará conseqüência muito maior ao aluno do que o simples aprendizado de um instrumento.
Em entrevista por e-mail, ele defende que o ensino propicia o aprimoramento humano, integrando conhecimento, observação, criatividade, respeito e consciência. Potencialmente, a música nos oferece isso, e a escola precisa se tornar cada vez mais o espaço onde as pessoas tomam contato prazeroso e efetivo com o saber.
Por que o senhor defende a volta do ensino de música nas escolas?
Em primeiro lugar, por possibilitar que crianças e jovens tenham condições de tomar contato com sua própria musicalidade, desenvolvê-la e vivenciar a música em seu fazer integrador e transformador. Cantar e tocar, ouvir e escutar, perceber e discernir, compreender e se emocionar. Há muito conteúdo e significado abaixo da superfície destas expressões, que afloram todas as vezes que experimentamos uma relação verdadeira com a música. Em algumas faixas etárias, o contato com diferentes manifestações musicais pode mostrar-se mais adequado e produtivo ao desenvolvimento dos alunos do que muitos dos assuntos usualmente tratados. Cada vez mais devemos visar não apenas o aprender, mas também o vivenciar e o apreender, de maneira mais profunda e totalizante, de acordo com a riqueza e complexidade que caracteriza nossa humanidade contemporaneamente.
Quais experiências de países que adotaram a música tiveram bons resultados?
Em praticamente todos os países da Europa há preocupação com o desenvolvimento da cultura musical, com a transmissão de valores criativos e artísticos próprios de sua tradição, que se manifesta de muitas maneiras, em particular com a constituição de grupos instrumentais ou vocais, com a promoção de apresentações nas escolas e outros espacos de formação. Entre nós, a abordagem deverá ser um pouco diferente, não só com a constituição de corais mas também de outros grupos musicais que existem tradicionalmente em diversas manifestações da cultura brasileira.
Especialistas afirmam que a música é um remédio sem contra-indicação. O senhor compartilha a idéia?
Entendo o sentido visado por esta colocação, mas prudência é sempre bem-vinda. A música, assim como a matemática, a filosofia, não é remédio para um mal não explicitamente diagnosticado. Para muitas pessoas com acentuada timidez, marcada limitação de expressão, dificuldade relacional, de concentração, a música pode representar um espaço eficientíssimo de crescimento e por conseqüência de superação. Nesse sentido, até podemos pensar que ela representa um remédio, de combate à doença que reduz a participação e o interesse, que diminui o prazer e a alegria, que restringe a relação de trocas com a sociedade.
Há recursos para um ensino de qualidade e a compra de bons instrumentos?
Do ponto de vista dos recursos humanos, existem muitos profissionais competentes e o principal desafio será a ampliação de quadro para atender a demanda futura. Vale a pena reiterar que a formação destes futuros profissionais deverá obedecer a programas adequados, concebidos com base na observação e na interpretação da realidade local e geral, levando em consideração o fato de não possuirmos, de maneira geral, bons instrumentos nas escolas, e que sua aquisição muito provavelmente se fará de maneira lenta e parcial. Por outro lado, temos em diferentes partes do Brasil experiências originais valiosíssimas que se construíram com base nas condições existentes e que elaboraram respostas criativas.
Qual contribuição esperar do ensino da música nas escolas?
Propiciar o aprimoramento humano, integrando conhecimento, observação, criatividade, respeito, consciência. Potencialmente, a música nos oferece tudo isso, e a escola precisa se tornar cada vez mais o espaço onde as pessoas tomam contato prazeroso e efetivo com o saber, em sentido amplo. Este sentido amplo a que me refiro implica em conhecimento a nível externo (saber da cultura) e interno (saber de si, pessoal). É necessário que os envolvidos na concepção e implantação da educação musical nas escolas desatentamente não substituam conhecimento, criatividade e expressão musical por nomes, números e datas, fragilizando assim o papel essencial e humanizador que a música desempenha na vida presente dos alunos, na construção de uma maior e melhor qualidade de vida na sociedade.


