Curitiba S/A - Natálio Stica
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sexta-feira, 17 de abril de 1998
Natálio Stica 
Está faltando democracia na economia moderna que o Paraná vem implantando com as montadoras de automóveis. O governo estadual concentrou um poder político absoluto, esvaziou todas as possibilidades de oposição ao programa de desenvolvimento proposto para andar em cima de quatro rodas, tendo retirado o conteúdo ideológico da maioria dos debates ou temas de maior interesse parlamentar, através do uso de uma comunicação social que promove a sociedade sem atrito e sem o debate das contradições. Assim temos uma sociedade perfeita.
A ótica que orienta a atuação reformista do governo Lerner, condicionada pelo empenho de ajustamento a tal modernidade econômica e por alterações na filosofia de proteção social e trabalhista - onde ainda não temos certeza que segurança ou garantias mínimas terão nossos aposentados e trabalhadores (privados e públicos) -, vem jogando todas a fichas do futuro paranaense na roleta mercadológica, sem uma discussão maior com a sociedade, desse amanhã de economia pura.
O Executivo estadual transformou-se num produtor de políticas que monopoliza todo o universo dos demais poderes, sufocando as funções do Legislativo, Judiciário, e dos governos municipais, neutralizando ou metabolizando todo o processo de poder público que possa gerar uma decisão diferente da cúpula lernerista.
Na área da Região Metropolitana de Curitiba esse sistema se repete a partir do prefeito Cássio Taniguchi. A RMC opera numa grande e harmoniosa parceria legislativa, na qual a maioria dos vereadores apenas permanece sentado (os que estiverem a favor permaneçam como estão) para aprovar as matérias de iniciativa do prefeito.
Os executores desse sistema de gerenciamento talvez imaginem que o Paraná não precisa mais dos políticos, só de economistas, especialistas em informática, recursos humanos, comunicadores sociais ou marketólogos. Afinal para que vamos precisar da ação parlamentar se o Estado passou a funcionar como uma empresa?
Além disso, a cultura de despolitização faz todo mundo feliz que nem depressivo quando toma Prozac. Muitos só pensam na vida financeiramente, nos lucros que o sistema possibilita. Não importa que falte dinheiro para a saúde, se muita gente vá morrer de dengue ou tuberculose, que todas as matas brasileiras peguem fogo, que aposentadorias, salário mínimo e vencimentos do funcionalismo joguem as pessoas numa favela, ou que o desemprego faça muitos caírem no crime para tentar sobreviver.
Importante é que nossa cidade, por exemplo, tenha pessoas falando em celular, outros circulando em carrões importados, que montadoras de automóveis e outras empresas vão fazer Curitiba mais moderna, atraente para o capital externo. Não importa darmos incentivos fiscais de mais para criar empregos de menos, que a bandidada de fora também venha tentar a vida nas nossas ruas, e que nosso verde tão vendido desapareça. Nosso mundo sem política está ótimo, ao gosto conservador.
Muitos curitibanos estão felizes no 1º mundo brasileiro, mesmo não saindo à noite por causa da violência, mas orgulhosos de Lerner e Taniguchi pela representação passiva que conseguiram nos legislativos estadual e municipal. Pelo menos podemos continuar concedendo títulos para digníssimos cidadãos na Câmara Municipal e dando nomes a novas ruas que o progresso abrirá na cidade.
- NATÁLIO STICA é líder do PT na Câmara Municipal de Curitiba.


