Curitiba, a aparente exceção
Por ser um fato tão notório quanto notável, não há como negar que o resultado das eleições municipais em várias capitais e em importantes cidades médias e grandes, teve o significado de um formidável vendaval esquerdizante que varreu a direita do poder e aprovou o desempenho da esquerda. Entretanto, a obviedade e a unanimidade da constatação não se repete no que diz respeito às razões desse fenômeno político-eleitoral. Abstraídas as paixões e os matizes ideológicos dos pontos de vista dos analistas, no fundo do fundo, a questão se nos afigura extremamente clara e simples.
A análise teórica das condições para o enfrentamento da hegemonia de sistemas políticos e econômicos dominantes o sistema capitalista neoliberal, no caso indica que o confronto só pode acontecer quando ocorrer, de modo interativo, a conjugação de dois processos: A) A elevação do grau de degenerescência, de contradição e de fragilidade do sistema vigente e B) A mobilização e a organização por parte das extensas parcelas da sociedade, atingidas pelo processo. Essa receita de bolo serve para esta análise, integralmente.
Vale também lembrar que um processo de confronto de tal natureza passa por cinco fases de preparação: 1 - Assimilação das informações quanto à situação vigorante; 2 - Conscientização quanto aos prejuízos que advirão da continuidade da situação; 3 - Preocupação de cada indivíduo pelo que será atingido no seu próprio espaço; 4 - Indignação com tudo o que está acontecendo; 5 - Mobilização das massas.
No Brasil 2000 é extremamente visível a existência do primeiro processo, devido aos resultados econômicos, políticos e sociais que o sistema produziu (dependência externa, corrupção, violência, desemprego, concentração de renda, exclusão econômica e social, crescimento explosivo das regiões urbanas etc.). Estão visíveis também as contradições e fragilidades existentes no interior dos centros de poder que comandam o sistema.
Pelo lado da organização do povo, entretanto, há grandes dificuldades para que o segundo processo se explicite porque as massas se encontram nos estágios 3 e 4 das etapas acima descritas, isto é, num misto de preocupação e de indignação, sem terem sido assimilados os dois estágios iniciais necessários à mobilização. É como alguém que está cursando a 3ª série sem ter passado pela 1ª e pela 2ª. Fatalmente fica patinando e não consegue chegar à 4ª série. Outra metáfora que podemos usar é a tentativa de fazer andar um automóvel, arrancando na terceira marcha sem o uso da primeira e da segunda.
No processo eleitoral recém-concluído, as únicas novidades surpreendentes são a rapidez e a amplitude com que milhões de eleitores superaram as fases 1 e 2, isto é, as dificuldades impostas pela ausência de informações adequadas e a decorrente falta de conscientização. Em outras palavras, a superação do processo de alienação política que nos vem sendo impingido cotidianamente, durante todos os 86,4 mil segundos de cada dia.
No Paraná, poder-se-ia dizer que essa teoria se confirmou apenas parcialmente (Ponta Grossa, Maringá e Londrina), já que o PFL manteve o poder em Curitiba. Essa é, no entanto, uma conclusão superficial e apressada. Independentemente de alguns detalhes de menor significado, a questão de fundo que impediu a vitória das oposições é o fato da maioria da sociedade curitibana ainda não ter conseguido atingir a superação das tais fases 1 e 2. Em termos eleitorais municiapis, isso ficou para 2004. Antes, porém, teremos ainda um decisivo teste de recuperação, em 2002.
É fácil, então, inferir que o resultado das eleições/2000 em Curitiba não constitui uma exceção que confirma a regra e a teoria acima. Ao contrário, é parte integrante da própria teoria e da própria regra.
- LUIZ CARLOS CORREA SOARES é engenheiro e vice-presidente do Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná, em Curitiba





