Os protestos que atingiram o Egito e derrubaram o ditador Hosni Mubarak em 11 de fevereiro colocaram em perigo um dos acervos culturais mais importantes da humanidade. Depois de alguma relutância, o ministro de Antiguidades, Zahi Hawass, admitiu que ladrões invadiram o Museu Egípcio em 28 de janeiro e levaram oito tesouros do período dos faraós Tutancâmon e Aquenáton. Ao menos três objetos haviam sido recuperados.
Em 2001, durante o governo Talibã no Afeganistão, duas estátuas gigantes de Buda em pedra, consideradas as maiores do mundo, foram destruídas. A alegação é de que eram contrárias às leis muçulmanas. Em qualquer conflito, as obras de arte são alvos preferenciais, sejam por seu valor material sejam pela importância cultural e histórica.
A antropóloga Ana Luisa Sallas, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), afirma que a prática de saquear tem por objetivo atingir a identidade do país invadido. ''Essa prática que vemos hoje é muito antiga e nela se sustenta a base de criação de muitos museus'', esclarece. E o destino do material roubado pode ser tanto coleções de particulares quanto acervos de outros museus.
Por que os museus e as obras de arte sempre são alvo quando um país entra em guerra?
Esse patrimônio dos países que são invadidos são alvo de uma cobiça muito grande. Primeiro porque, de uma certa forma, são carregados de um simbolismo referente à identidade desses países, a identidade nacional. Na nossa história mais recente, quando Napoleão invadiu Portugal, a primeira coisa que fez foi ir à Torre do Tombo em Lisboa, onde tinha os arquivos dos viajantes, falando dos países e das riquezas do Brasil para saquear. Quando o exército de Napoleão invadiu o Egito, levaram coisas do patrimônio egípcio e essas coisas hoje estão no Museu do Louvre, que representa a história colonial mais recente do antigo império francês. Essa prática que vemos hoje é muito antiga e nela se sustenta a base de criação de muitos museus.
Como funciona a negociação para devolução dessas peças?
Essa é uma questão extremamente delicada porque é objeto de uma negociação diplomática, política. Na Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) há cartas sobre a preservação do patrimônio, há muito tempo estabelecido como uma ideia de que o patrimônio cultural de um país tem que ser garantido com a mesma energia que se deve empregar para garantir a vida da população civil. Mas isso sistematicamente tem sido transgredido e depois vai ser objeto de discussão, de negociação, fora que vários objetos acabam nas mãos de colecionadores. No Brasil, no site do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (www.iphan.gov.br), tem um link com as obras de arte que foram roubadas dos museus brasileiros para justamente tentar a recuperação deles.
Com certa frequência temos notícia de roubo de peças em museus brasileiros. Nossa segurança é precária?
Eu não poderia dizer se é precária ou não. Tem museus que são mais visados e têm sistemas de segurança muito mais efetivos que outros. Mas todo sistema de segurança tem sua vulnerabilidade. Hoje o patrimônio mais visado são as igrejas. Os anjos barrocos e santos que não têm volume muito grande são alvo de roubos.
No Brasil temos um sistema adequado de conservação das obras?
Depende do museu. Aqui no Museu Paranaense nós temos uma área de restauro. A Pinacoteca de São Paulo tem um setor especializado em restauro de obra de arte. É uma área que tem se desenvolvido muito no Brasil, inclusive em razão de uma maior consciência do valor do patrimônio, da memória, das nossas referências culturais. Então acho que houve alguma mudança não só na área de restauro, mas também de arquivo dos próprios museus.
Nos últimos anos tivemos uma política de Estado no sentido de reforçar a abertura e a permanência de museus até de comunidades pobres, como foi criado no Rio de Janeiro o Museu da Maré e no Acre a Casa do Chico Mendes. Estamos mudando de museus já tradicionais - ou igrejas - para museus que tentam dar conta das várias expressões culturais de diferentes grupos sociais, de diferentes classes. Todos têm direito à memória e à história.
Como a senhora avalia a qualidade e a quantidade de museus no Brasil?
No início dos anos 2000 tínhamos cerca de 700 museus e eram instituições que estavam em vias de desaparecimento. Tínhamos exposições muito badaladas e o resto ficava absolutamente sem incentivo. Com a mudança de governo e a criação efetiva de uma política de Estado com relação ao patrimônio, temos hoje 2,5 mil museus, centros de cultura, casas de memória. Mas não posso avaliar o estado em que estão.
Esse número, pelo tamanho do Brasil, ainda está muito aquém do ideal, não está?
Seguramente, porque, em outros países, municípios de até 50 mil habitantes têm pelo menos uma casa da memória. O museu pode ser de história natural ou pode ter como acervo um espaço ao ar livre. É equivocada a ideia de que museus são apenas de arte ou de peças antigas.
E como incutir nas pessoas o hábito de frequentar museus?
Acho que desmistificando. É um trabalho que já foi iniciado, mas que para se consolidar precisa de educação. Essa ideia de que em lugar de obra de arte não pode falar, não pode mexer, tem sido alterada pela própria maneira como a arte se configura atualmente.
Como a senhora avalia o Google Art Project, que permite que o internauta visite 17 museus de todo o mundo?
Eu não acessei ainda, mas conheço alguns museus que têm a visita virtual. É uma forma de difusão. Hoje, o acesso ao computador está mais popularizado, as pessoas podem acessar de várias formas e de vários lugares.

mockup