Cultura, o que norteia nossa vida
Viadutos mal planejados, trevos confusos e acessos perigosos fazem parte de um padrão que se repete há décadas
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 29 de agosto de 2025
Viadutos mal planejados, trevos confusos e acessos perigosos fazem parte de um padrão que se repete há décadas
Ary Sudan 
A vida é guiada por escolhas, e essas escolhas são moldadas pelo que aprendemos e vivemos — muitas vezes, pela cultura que herdamos. Isso vale tanto para o indivíduo quanto para a coletividade. Tomemos como exemplo a nossa cultura rodoviária: no Paraná, a construção de estradas reflete uma tradição enraizada, marcada por decisões que, reiteradamente, desconsideram princípios básicos de segurança.
Viadutos mal planejados, trevos confusos e acessos perigosos fazem parte de um padrão que se repete há décadas. A impressão é que, em algum momento do passado, a engenharia rodoviária local criou uma espécie de "escola" — e, pior, essa escola continua sendo seguida pelos sucessores. Um exemplo emblemático é o viaduto da Warta: ao final do acesso, o motorista é lançado diretamente na pista de rolamento, sem qualquer transição segura. Imagine isso à noite, com uma carreta de 15 metros — o cenário perfeito para uma tragédia anunciada.
O mais alarmante é que essa forma de construir não é exceção — é a regra. E, pior, novos projetos seguem esse mesmo modelo ultrapassado. Isso mostra que não estamos apenas repetindo erros: estamos perpetuando uma cultura rodoviária que negligencia a segurança do usuário. Essa cultura precisa — e pode — ser transformada. Mas, para isso, é preciso, antes de tudo, consciência.
Ao cruzar a divisa com o Estado de São Paulo, a diferença salta aos olhos. Lá, a infraestrutura viária revela planejamento, cuidado e respeito pelo motorista. E não se trata apenas de engenharia. A sinalização também é um reflexo dessa cultura mais responsável: no Estado vizinho, o motorista é alertado com antecedência sobre qualquer perigo na pista; já no Paraná, o aviso muitas vezes só aparece quando já estamos em cima do risco.
Isso prova que é possível construir uma nova escola — uma nova forma de pensar e agir — que sirva de referência para as próximas gerações.
Mas, para isso, precisamos romper com a cultura do improviso e da culpabilização simplista. No Brasil, é comum que acidentes sejam atribuídos unicamente ao “erro humano”, sem que se investiguem as causas estruturais. Se um ponto da rodovia acumula dezenas de acidentes, isso não é coincidência — é falha de projeto, de sinalização ou de manutenção. Ignorar isso é, no mínimo, negligente.
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Poderíamos aprender muito com a aviação, que oferece um exemplo claro de como a cultura pode ser transformada. Cada acidente aéreo é analisado com rigor, buscando compreender causas técnicas, humanas e sistêmicas. E, uma vez identificadas, as falhas são corrigidas para evitar novas tragédias. Essa cultura de aprendizado contínuo precisa ser incorporada às nossas rodovias. O problema não é exclusivo do Paraná — é nacional.
A mudança começa pela consciência. Precisamos reconhecer que nossa cultura rodoviária está falida, e que é urgente criar uma nova escola — uma escola que, ao ser seguida por muitos, se transforme em cultura. Uma cultura que valorize a vida, o planejamento e a responsabilidade coletiva.
Essa mudança não será construída apenas por engenheiros, mas por todos nós: cidadãos, gestores públicos, motoristas, educadores e formadores de opinião.
Se agimos conforme nossa cultura, que tal criar uma nova? Uma cultura que não apenas construa estradas, mas caminhos seguros para o futuro.
Ary Sudan - empresário



