Hoje é feriado e muitos brasileiros têm a impressão: 2008 é daqueles anos em que o calendário ''comeu'' várias de suas folgas. De nove feriados em datas fixas, quatro - a exemplo deste 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida - caem em finais de semana. Resultado: fim dos feriadões.

Para o professor de História Luiz Manini, o ideal senhorial ainda permeia a sociedade brasileira: aquele que sonha em ganhar na Mega-Sena, em encontrar um jeitinho, também sente-se senhor quando não trabalha e recebe por isso. ''No Brasil, os feriados são desacreditados, pois seu verdadeiro significado nos escapa. Não existe aqui uma cultura cívica de valorização dessas datas'', argumenta.

O senhor acredita que essa cultura de gostar de feriados apenas pelo ''descanso'' e não por seu significado é exclusividade brasileira?
Não necessariamente. Mantive conversas com amigos meus de outras nacionalidades e o caso brasileiro não é uma exceção gritante. Mesmo nos Estados Unidos há um certo esquecimento de significados quanto aos feriados, embora menor do que vemos aqui. No Brasil, os feriados são desacreditados, pois seu verdadeiro significado nos escapa. Não existe aqui uma cultura cívica, de valorização dessas datas e há um fator essencial para isso: quando estudamos o caso de Tiradentes, por exemplo, vemos que o movimento liderado por ele era estritamente elitista, com propostas voltadas a preservar determinados interesses. Desta forma, como o povo pode se identificar com tal idéia? Talvez seja por isso que o dia 20 de novembro tenha maior significado para a comunidade negra do que o 13 de maio, pois a morte de Zumbi relaciona-se de fato a uma liderança que lutou pelos direitos de uma camada explorada e discriminada. Não havendo tal compreensão, entende-se a razão pela qual o brasileiro valoriza apenas a folga, e não o momento comemorativo, que não lhe atinge.

Há uma justificativa para a postura do brasileiro em relação às datas?
A ''questão brasileira'' em relação ao feriado também está nas raízes de nossa colonização. Como já apontou Antonil, padre italiano que nos visitou no século XVIII, o ser senhor é um objetivo de muitos, estando disseminada a terrível esperança do viver em abundância sem ter de trabalhar para isso. Vejamos como exemplo a idéia da loteria: quantos não sonham em ganhar na Mega Sena para viver somente de renda? É um ideal senhorial que ainda permeia a sociedade brasileira e transforma o trabalhador, no dia do feriado, em um ''senhor de engenho'': não trabalha e recebe por isso. Não se trata de uma crítica ao feriado em si, mas tal mentalidade permeia toda a sociedade e impede um avanço econômico mais eficaz.

De fato, há aqueles que afirmam que ''se todo fato histórico fosse virar feriado, não trabalharíamos mais''...
Concordo plenamente, por minha própria formação. Imagine que o fato de um operário levantar-se cedo para trabalhar é um acontecimento histórico, de importância inestimável, pois naquele momento ele se prepara para movimentar a economia do país, impulsionando-o em um rumo de crescimento. Poderíamos então comemorar a cada momento desses? Ficaria inviável. No entanto, há um discurso oficial que transforma em heróis apenas aqueles que, teoricamente, dedicaram sua vida a uma causa. Seriam estes os heróis verdadeiros? Então somente Tiradentes foi o grande mártir da independência? Por que não se comemorar a morte de Cosme Damião Pereira Bastos, um dos líderes da Conjuração Baiana, movimento de cunho popular que possuía os mesmos objetivos da Inconfidência Mineira, inclusive lutando contra o preconceito e a pobreza? Dessa maneira, as pessoas normalmente deixam escapar o significado dessas datas, por não se identificarem com estes supostos heróis, pertencentes a realidades bastante distantes das suas.

Em relação às datas em si, sejamos francos: ninguém se importa e quase ninguém as celebra. Quebrar essa linha de raciocínio é tarefa de quem?
Esse tipo de raciocínio não é fácil de ser modificado. Em se tratando de uma questão cultural, a mudança de comportamento se dá a longo prazo e apenas com um trabalho incisivo e contínuo. A tarefa de modificar isso cabe em grande parte às escolas, os motores da formação do cidadão que construirão na pessoa os valores e significados que a mesma atribui a determinadas datas ou fatos.

Em um país que precisa desesperadamente crescer, será que não temos feriados demais?
Neste caso, respondo com alguns exemplos: na Bélgica há 22 feriados, enquanto temos apenas 10. No entanto, o IDH belga é muitíssimo maior do que o brasileiro. Outro exemplo: a economia chinesa cresce de forma assombrosa, mesmo possuindo 17 feriados no país. Será que não poderíamos pensar que o desenvolvimento do Brasil não está se atrasando em relação a outros fatores? Será que uma cultura Macunaíma realmente condiz com um país que quer crescer? A ''malandragem'' e o ''jeitinho'' brasileiro não são lembrados em todo o mundo? Será que podemos então crescer com essa cultura do improviso, do descaso? A questão é bastante complexa e realmente não podemos demonizar os feriados, pois estaremos fugindo do cerne da questão.

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