Cultura e
conhecimento
Ale Ahmed Ghazzaoui
Após terem traduzido as obras dos gregos como Euclides, Arquimedes e Apolonius, os árabes cuidaram da geometria. O célebre matemático Al-Buzjani, falecido em 986, era conhecedor profundo da geometria e resolvia com facilidade os problemas geométricos. O pêndulo já era há muito tempo conhecido entre os árabes; não obstante, o nome do seu inventor é desconhecido. A prova de que ele existia entre os árabes é que quem o transmitiu à Europa foi Gerbert, o padre francês que se tornou papa com o nome de Silvestre II, de 999 a 1003. Ele fez seus estudos na Andaluzia e lá estudou o árabe e todas as ciências que eles então cultivavam, e principalmente a matemática.
Os árabes foram os inventores da trigonometria. Usavam as tangentes ao invés das cordas do arco. Arzaquel inventou uma tábua de tangentes, dividindo a circunferência em 300 partes. Geber descobriu duas equações que foram a base da arte trigonométrica moderna. O primeiro que impôs as quatro operações iniciais da aritmética foi Abul-Faraj, que além disso era o mais talentoso escritor de Bagdad. Não devemos, por outra parte, negar que os árabes adotaram o sistema decimal, usado pelos indus, mas o melhoraram muito, e introduziram na Europa os algarismos que até hoje são usados e conhecidos como algarismos árabes.
Eles também foram os inventores da álgebra, que é a maior invenção do cérebro humano, feita por Al-Khawarismi. A geometria e a aritmética eram tidas pelos árabes como instrumento de lógica. E nas suas obras sobre a mecânica, a hidrostática, a ótica, nota-se que eles encontravam sempre a solução dos problemas pelo caminho de uma experiência direta ou de uma observação instrumental.
Eis aí o que conduziu os árabes, criadores da química, à invenção de uma multidão de aparelhos para a destilação, a sublimação, a fusão, a filtração. O que, em astronomia, fê-los empregar os instrumentos graduados, quadrantes, astrolábios, o que os induziu a empregar na química a balança, cuja teoria era-lhes perfeitamente familiar – o que os ensinou a construir tábuas de gravidades específicas e tábuas astronômicas, como as de Bagdad, de Córdoba (Espanha) e de Samarkanda.
O desempenho nessas áreas lhes valeu tanto progresso na geometria e na trigonometria, que enfim os tornou inventores da álgebra e os fez adotar o sistema de numeração indiana. Eis aí o que lhes valeu terem preferido o método indutivo de Aristóteles às divagações dedutivas de Platão. Quanto às obras originais, era costume entre os professores árabes prepararem tratados sobre matérias dadas. Cada califa tinha o seu historiógrafo, contos e romances no gosto. Ibn-Mussa demonstrou a solução das equações; Omar Ibn-Ibrahim o das equações cúbicas.
Os árabes deram igualmente à trigonometria a sua forma atual, substituindo a corda de arco, até então em uso, e tornaram esta ciência distinta. Ibn-Mussa também foi o autor de uma obra sobre a agrimensura, tão perfeita que muitos sábios duvidaram que alguém podesse produzir uma obra de tamanha importância naquela era.
Grandes obras físicas produziram os árabes, mas infelizmente elas estiveram encobertas nas bibliotecas européias. As leis de física são leis fundamentalmente científicas e serviram de base às ciências atuais. O talentoso Kepler (astrônomo alemão, 1571-1630), em seus estudos sobre ótica, traduzidos para diversos idiomas, tornou os físicos do Ocidente os verdadeiros descobridores, quando na realidade, a maioria de suas obras em latim ou italiano foram plagiadas daqueles grandes físicos árabes, sendo Al-Hassan o principal dentre eles.
É indubitável que nas magníficas universidades árabes de Córdoba e Sevilha, entre outras, deveriam existir sagazes comentadores do pensamento grego, mas a destruição de suas bibliotecas que se seguiu à Reconquista cristã, apagou a maior parte dessa interessante obra, que geralmente ia acompanhada de novos e inestimáveis ensinamentos e observações. Sirvam-nos de exemplo as obras de Al-Hassan sobre a ótica, cujos ponto de vista a respeito de alguns fenômenos são mais perfeitos que os de Ptolomeu. Tal ocorre, ainda com a Lei da Refração.
- ALE AHMED GHAZZAOUI é secretário executivo do Centro Cultural Beneficente Islâmico de Foz do Iguaçu
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