CULTURA DO INCENTIVO - Empresas privadas não investem em pesquisa
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quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Paula Barbosa Ocanha<BR>Reportagem Local 
O número de pesquisas científicas publicadas pelo Brasil cresceu nos últimos anos. Considerando todas as áreas do conhecimento, o número de pesquisas publicadas em 2007 foi de 19.436. Em 2008, o total foi de 30.145, quantidade que representa 2,12% da produção mundial, e deixou o Brasil em 13º lugar no ranking de produção científica.
Segundo a professora Carmen Silvia Vieira Janeiro Neves, diretora de pesquisas da Universidade Estadual de Londrina (UEL), o País tem condições de aumentar o número de publicações. Para isso, no entanto, o setor privado tem que participar de forma mais efetiva.
''Aqui no Brasil não existe a cultura de incentivo à pesquisa por parte de empresas privadas. Mais de 80% do investimento em ciência e tecnologia são derivados do poder público, enquanto nos outros países as empresas também têm papel importante no financiamento de pesquisa'', afirma.
O Brasil está em 13º no ranking mundial de produção científica? Qual é a sua avaliação sobre o desempenho dos cientistas brasileiros e o que é preciso ser feito para melhorar?
O resultado é bom porque significa um avanço em relação aos anos anteriores. Se hoje contribuímos com 2,12% do total, esse desempenho já foi inferior, com 1,5% em 2002 e 1,8% em 2005. Mas é claro que temos muito a avançar ainda, pois estamos abaixo de países como a Índia, que está em décimo lugar.
A falta de incentivo governamental é um dos fatores que impedem um melhor desempenho do País no ranking?
Os incentivos por parte do governo têm aumentado, mas estamos longe do ideal. Grande parte dos resultados de pesquisas que são publicadas são gerados nas universidades, em dissertações de mestrado e teses de doutorado. O número de mestres e doutores formados no Brasil teve um aumento significativo, de 13,5 mil em 1996 para 40,6 mil em 2007.
Nessa direção tem sido importante o crescimento do número de bolsas concedidas pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), pertencente ao Ministério da Educação, de 19 mil para 41 mil bolsas de mestrado e doutorado no mesmo período. No Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pertencente ao Ministério de Ciência e Tecnologia, o número de bolsas tem aumentado, passando de 72 mil em 2009 para 90 mil bolsas em 2010, incluindo todas as modalidades: iniciação científica (para estudantes da graduação), iniciação científica júnior (para estudantes do ensino médio), mestrado, doutorado, pós-doutorado e pesquisador.
O Brasil é um dos países em que os investimentos em pesquisa e desenvolvimento mais crescem no mundo, com uma taxa de 10% ao ano. Mas o investimento da China chega a uma taxa de crescimento de 20%. Por outro lado, aqui no Brasil não existe a cultura de incentivo à pesquisa por parte de empresas privadas. No Brasil, mais de 80% do investimento em ciência e tecnologia são derivados do poder público, enquanto nos outros países as empresas também têm papel importante no financiamento de pesquisa.
Muitas pesquisas deixam de ser publicadas por falta de apoio ou de interesse nos resultados?
Temos que considerar o problema do alcance das nossas revistas científicas, isto é, se as publicações chegam ao público interessado, que são os pesquisadores da área. Esse ranking de países em relação aos artigos publicados não abrange todos os artigos publicados, só os que estão nas revistas indexadas (cadastradas) nas bases de dados internacionais, que selecionam as revistas a partir de alguns critérios de qualidade, entre eles o idioma, que não é o único, mas que é muito importante.
Assim, se a pesquisa estiver publicada em uma revista brasileira que não pertence à base de dados, ela não faz parte desse conjunto de artigos citados, apesar de ter sido publicada.
Então, o Brasil não produz pesquisas em número satisfatório ou apenas não consegue publicar os resultados?
Um pouco de cada. Em alguns setores o Brasil não tem tantas pesquisas ''de ponta'', que são as prioritárias das revistas mais importantes, o que reduz as chances de publicação. Além disso, em muitas instituições, os pesquisadores não têm incentivo para a publicação e muitas vezes resultados importantes ficam ''na gaveta''.
O fato do artigo ter que ser escrito em inglês interfere no número de publicações?
Interfere muito. Uma das formas de avaliar a qualidade de uma revista científica é através do chamado 'Fator de Impacto' (FI). Este fator é calculado levando em conta o número de artigos publicados nos últimos dois anos naquela revista e o número de citações desses trabalhos em outros artigos. Quanto maior o FI, mais conceituada a revista, e as revistas com maior FI só aceitam artigos em inglês.


