Cultura do desperdício
Parece um contrassenso. Em um mundo onde 805 milhões de pessoas passam fome, 1,3 bilhão de toneladas de alimentos são jogadas fora anualmente em todas as etapas da cadeia produtiva. A quantidade corresponde a um terço da produção mundial. É claro que as pessoas têm responsabilidade nisso, uma vez que compram mais alimentos do que precisam e preparam uma quantia maior do que irão consumir. Mas o problema não está só nesta última fase da cadeia produtiva. O desperdício de alimentos tem início ainda no campo, na primeira etapa da sua produção. Estimativas da Organização das Nações Unidas para Alimentação e a Agricultura (FAO) indicam que, do total dos alimentos não utilizados, pelo menos 10% se perdem nas plantações. Manejo e colheita incorreta já provocam perdas. Do que sobra, 50% são perdidos na distribuição, no transporte e no abastecimento. Interessante afirmar que até mesmo as péssimas condições das rodovias brasileiras têm influência direta no assunto. Estradas mau conservadas também contribuem para estragar os alimentos produzidos e, por isso, a importância de se investir em obras que melhorem a infraestrutura logística do País. Do restante das perdas, 40% são registradas na cadeia do consumo. Grandes quantidades de comida são descartadas simplesmente porque estão fora dos padrões de aparência devido a práticas ineficientes e pela expiração das datas adequadas para consumo. Como abordado em reportagem de hoje, iniciativas já foram desenvolvidas para reduzir as perdas e o desperdício, mas ainda são poucas e bastante localizadas perto do total perdido. É preciso envolver toda a população. O ideal seria desenvolver um amplo projeto que aborde todas as etapas da produção de alimentos: do campo à mesa dos consumidores. Todos precisam estar conscientes das perdas, até mesmo de recursos naturais utilizados na produção de alimentos. A cultura do desperdício é comportamento que deve estar erradicado.





