Desde os tempos mais remotos de nossa espécie a violência está atrelada às conquistas realizadas pelo ser humano. Do surgimento dos primeiros agrupamentos de hominídeos nômades às primeiras civilizações da antiguidade, passando pela formação de reinos, estados, nações, sem muito esforço podemos constatar que a violência esteve, está e, ao que tudo indica, dificilmente não estará presente no desenrolar da história da humanidade - seja ela física, psíquica, verbal, para ficar apenas nestes exemplos.
Agora, por mais difícil que seja pensar no desenvolvimento da humanidade sem a ideia da violência em seu encalço, no Brasil temos um fator agravante que está nos levando a crer que estamos vivendo o pior momento pelo qual nós já enfrentamos em relação à violência, muito graças à conjugação dos seguintes fatores: a agilidade, a quantidade e o modo como a informação relacionada à violência nos é apresentada. Seja zapeando uns minutos a internet, assistindo televisão, lendo jornais ou revistas, enfim, não é difícil constatar a grande variedade de canais de comunicação que se especializaram em nos apresentar a violência da forma mais desonesta que se possa imaginar: vinculada ao sensacionalismo. Sem propósito nenhum vinculado à reflexão, e na grande maioria das vezes desprovidos de todo e qualquer senso de humanidade, trazem questionamentos tão vagos e tendenciosos que acabam persuadindo uma parcela significativa da população a acreditar que a violência pela violência é a única solução para as nossas mazelas.

Em se tratando de Brasil, não é difícil buscar explicações históricas que justifiquem o gosto pela violência desmedida. Os aproximadamente 400 anos de escravidão, por exemplo, encontram-se enraizados a uma mentalidade que podemos nomear como escravocrata. Isso não quer dizer que concordamos com a escravidão que acometeu a comunidade negra por séculos, mas sim diagnosticar, com tristeza, que não conseguimos nos desvincular de um passado em que boa parte das questões eram resolvidas recorrendo-se a castigos físicos realizados à luz do dia e aos olhos de quem se interessasse em assistir a chicoteamentos, espancamentos e afins.

Em um país com um passado como esse qual o problema de sermos bombardeados diariamente com informações como as citadas nos parágrafos anteriores? Dentre vários apontamentos, a perpetuação da cultura da violência, atrelada ao medo generalizado da população e a sensação de impunidade na qual vivemos, talvez seja a principal perspectiva que devemos concentrar nossa atenção, haja vista que o resultado desta perigosa conjugação acaba sendo o pior de todos: a crença de que a justiça pelas próprias mãos é o caminho para resolver problemas graves vinculados a violência.
Acreditar nessa falácia, ainda mais em um momento tão delicado (já que, em pleno século 21, ainda estamos tentando consolidar nossa democracia), é tudo o que não podemos compactuar, pois essa prerrogativa abre caminho para que pensamentos vinculados ao totalitarismo, perspectiva política muito perigosa e tão presente em vários momentos da história, ganhe corpo e destrua as conquistas democráticas alcançadas até o momento. Se realmente temos a pretensão de fazer algo diferente e inovador para o futuro de nossa nação, devemos nos distanciar de toda e qualquer visão ligada à brutalidade, ódio e agressividade (sejam elas piadas, comentários preconceituosos, compartilhamento de imagens, vídeos, etc.), e deixar de lado ilusões vinculadas a leis que se parecem muito com prescrições médicas superficiais, já que visam combater apenas os sintomas e não as verdadeiras causas da doença, forçando-nos a crer que o remédio da vez irá curar todos os nossos males, quando na verdade camufla e alimenta uma perspectiva cultural fortemente vinculada a violência.

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