Um espírito anônimo, mas iluminado, da Unesco, teve a feliz idéia de criar um tema para as atividades da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, no próximo ano, de tal modo que a Assembléia Geral da ONU proclamou o ano 2000 o Ano Internacional da Cultura da Paz.
O que pode soar estranho, ‘‘Cultura da Paz’’ é precisamente a chave da criação. Por quê? Porque nós fomos alfabetizados com a cultura da guerra. Alguém tem recordação de em algum dia haver assistido alguma aula falando sobre paz, em qualquer nível do nosso ensino? Dificilmente. Quando muito aprendemos que existiram tratados de paz.
Isso já é um contra-senso. Com efeito, é um ato que transforma a paz, que deveria ser - e há de ser! regra -, em exceção. Para que haja a paz é necessário firmar-se um tratado?
Agora, pensemos do outro lado, quantas vezes tivemos aulas sobre guerras. Guardo a impressão de que nos ensinaram tudo sobre todas elas, ainda que tudo não tenhamos aprendido. Mas ficaram na lembrança as antigas guerras greco-persas, especialmente a guerra de Peloponeso, a guerra gálica (‘‘De Bello Galico’’, quantas vezes nos repetiram em latim) e os nossos heróis eram Ciro, Dario, Alexandre, Xerxes ou Júlio César. E depois as guerras modernas das quais o grande herói era Napoleão. E mais recentemente as chamadas grandes guerras, notadamente a última, que deu heroísmo a nomes como Churchill, De Gaule e Eisenhower e notoriedade (ou será imortalidade?) a Hitler, Mussolini e outros.
O grande clássico, que ainda hoje é referência cultural e que ao meu tempo de ingresso na Universidade tínhamos que aprender em latim, a ‘‘Eneida’’ de Virgílio, tem como tema a sempre presente guerra de Tróia.
Mesmo no estudo da História do Brasil nunca fugimos à guerra e, a cada fato relevante político ou econômico, intercalamos as nossas ‘‘pequenas guerras’’, do Contestado, envolvendo a nossa questão paranaense com Santa Catarina, no início do século; Canudos, na Bahia, no fim do século passado; Farrapos, no Rio Grande do Sul, no primeiro quartel do século passado, ou Mascates, em Pernambuco, no início do século XVIII.
Isso apenas para não falar da cultura da guerra na bibliografia, no cinema e na televisão. E não se diga que essa exposição tem finalidades didáticas, até porque raramente alguém mostra a guerra e a condena. Como todos deveríamos condenar diuturnamente. Como, por exemplo, a condenou o nosso admirável Rui Barbosa
No volume XLIV, Tomo I, de suas Obras Completas, sobre o título ‘‘Grandes Guerras’’, Rui escreve, com palavras definitivas: ‘‘A lei da guerra é a lei da força. A lei da força é a lei da insídia, a lei do assalto, a lei da pilhagem, a lei da bestialidade. Lei que nega a noção de todas as leis, lei de inconsciência, que autoriza a perfídia, consagra a brutalidade, agaloa a insolência, eterniza o ódio, premeia o roubo, coroa a matança, organiza a devastação, semeia a barbaria, assenta o direito, a sociedade, o Estado no princípio da opressão, na onipotência do mal. Lei de anarquia que se opõe à essência de toda legalidade, substituindo a regra pelo arbítrio, a ordem pela violência, a autoridade pela tirania, o título jurídico pela extorsão armada. Lei de mentira, na falsa história que escreve (...). Lei do sofisma, lei da inveja, lei da carniceria, lei do instinto sanguinário, lei do homem brutificado, lei de Caim’’.
De Caim aos nossos dias a humanidade continua guerreira. O esforço da Unesco, propondo a Cultura da Paz e fazendo de 2000 o Ano Internacional da Paz, talvez seja a primeira gota num oceano revolto. Mas essa pequena gota contém a grande esperança do ser humano.
- JOÃO FÉDER é coordenador da cátedra Cultura da Paz da Unesco

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