Culto à frivolidade
Culto à frivolidade
Paulo Besse
O culto à frivolidade e a submissão à ditadura dos modismos têm ocupado espaço nos meios de comunicação social. No imenso shopping de futilidades, promovido pela força da mídia que tudo banaliza e transforma em espetáculo, há prateleiras para todos os gostos. Não faz muito tempo, o anúncio da gravidez da Xuxa, modelo acabado de glamourização do nada, assanhou as capas de algumas publicações e empurrou o noticiário da crise asiática para o lusco-fusco das páginas anteriores. Vivemos sob o domínio do inconsistente e sucumbimos à tirania do politicamente correto.
O fenômeno, no entanto, não admite explicações unilaterais. Existe, frequentemente, uma curiosa relação de amor e ódio, uma paradoxal cumplicidade entre a mídia, suas estrelas e a opinião pública. Também não tão distante no tempo, a morte da princesa Diana é um paradigma desse fenômeno. Reações emocionais e julgamentos precipitados espartilharam a repercussão da tragédia. Os paparazzi, cortejados pelo subjornalismo, foram lançados no fosso da execração. Não se trata, por óbvio, de tentar absolver o comportamento desses urubus do drama humano. Mas é razoável reduzir o show mediático ao cruel pragmatismo dos profissionais do jornalismo mundo cão. A fábrica de celebridades depende de uma complexa linha de montagem: a síndrome de cinderela, o sensacionalismo da imprensa e a demanda social de frivolidade. Diana sucumbiu à síndrome de cinderela.
Outra vítima da mesma situação, assim se pode dizer, foi a menina de 11 anos, que estuprada, engravidou. Foi-lhe concedida a autorização judicial para o aborto. A família é paupérrima. Pressões de grupos contrários contra o aborto terminaram por convencer o pai dela de que seria melhor levar adiante a gravidez. Vítima de uma situação para a qual não estava preparada, acabou se transformando num produto de show business. Mas a fábrica de celebridades não se esgota no mítico e dramático itinerário das cinderelas. O sensacionalismo da imprensa transforma a vida num contínuo programa de auditório.
A obsessão seletiva pelo underground da vida tem transformado páginas de comportamento num compêndio freudiano. Biografias não autorizadas não têm repercutido apenas nas páginas dos tablóides sensacionalistas. Maledicência e agressões abusivas à intimidade parecem estar imunes aos critérios de qualidade, ridículo e deselegante, ganha status de informação relevante. O que importa é chorar.
A indignação da opinião pública contra a imprensa sensacionalista, compreensível e necessária, não pode ocultar o seu lado hipócrita e esquizofrênico. Se fizermos uma análise, descobriremos nesse caso, para além dos fotógrafos, dos jornais, das pessoas ilustres um culpado maior: a sociedade contemporânea - a que se compraz na futilidade, na vulgaridade e nas aparências.
Faço, no entanto, uma ressalva: o mercado não pode ser um juiz inapelável, um álibi para justificar a prática de autênticas delinquências editoriais. Não devemos atuar à margem do mercado, mas não podemos sobrevalorizá-lo. Jornalismo desvinculado do mercado gera moralismo e chateação. Mas jornalismo refém de mercado escorrega para a irresponsabilidade editorial. Sempre que posso procuro manter vivo meus contatos com editores, professores e até mesmo estudantes, e isso têm sido uma ocasião privilegiada para pulsar o sentimento de um público qualificado.
Segundo alguns, o jornal, tradicionalmente forte no tratamento da informação, tem sucumbido às regras ditadas pelo mundo do entretenimento. O esforço para conquistar novos leitores, legítimo e necessário, tem partido de uma premissa estratégica equivocada: tentar imitar o modelo eletrônico. Na verdade, é preciso travar a revolução nos conteúdos. O que vai agregar novos consumidores é uma ágil e moderna prestação de serviços e o resgate da reportagem de qualidade. É a matéria que ultrapassa a superficialidade televisiva, é a denúncia fundamentada, é o texto elegante e bem escrito. É necessário surpreender o leitor com matérias que rompem a monotonia do jornalismo de registro. Temos de ser mais ousados (ou menos burocráticos). Assim talvez conseguiremos o que está nos faltando há um longo tempo: o respeito pelo jornalismo e o crédito que no momento está um pouco fosco.
- PAULO BESSE é jornalista e estudante de ética no jornalismo em Maringá





