A mitologia grega e as religiões ocidentais estabeleceram um padrão de comportamento assemelhado para os que dirigem suas orações para Deus, Alá ou Adonai Elohim. Os mortais devem ter fé, fazer penitências, postar-se diante do altar, entregar oferendas e, assim, se credenciar a um futuro grandioso e feliz seja no paraíso, seja no nirvana. As grandes conquistas são sempre precedidas de sofrimento.
Esse traço cultural acompanha a civilização ocidental, que impede, aliás, saltos de qualidade, sobretudo neste canto de mundo. E faz da história uma espécie de guia da vida. Todos têm que pôr o dedo na tomada para levar um choque. Depois, recebem os choques da vida na forma das desilusões, descrenças e pacotes econômicos. É preciso sofrer para se candidatar a uma vida melhor, aqui ou no segundo andar.
Exceção a esse comportamento é o do norte-americano médio. Nos EUA, não é pecado fazer sucesso, ganhar bem e ser vitorioso. A vida é vivida no presente. O futuro é perspectiva criada a partir das realidades atuais. Essa variável foi criada pela reforma que Lutero promoveu na religião católica. Americano não troca o presente pelo futuro.
Aqui ocorre o contrário. Desde o início da República, presidentes e ministros pedem ao povo para fazer sacrifícios em nome de um futuro melhor. As recessões econômicas aparecem com monótona regularidade. Os planos econômicos e as recorrentes operações de salvação nacional insinuam sempre que o jejum é necessário. Purifica. É uma espécie de ‘‘agora vai’’ coletivo, que domina algumas correntes de pensamento e faz a proposta imediata: é preciso fazer sacrifícios para garantir um amanhã luminoso.
Conversa antiga. A perspectiva de futuro é passada. O País que está sendo legado a nossos pósteros está se desenhando mais complexo e menos amável. O desemprego aumenta, os juros continuam em patamares indecentes em nome da expiação de culpa coletiva. Os próximos deverão ser melhores que os tempos que correm. Será? O outro dogma desse postulado é o da fé. É preciso acreditar.
Se todos agissem como o Candide, de Voltaire, ficaria mais fácil. Infelizmente, não é assim. Está decidido que o Brasil tomará as medidas necessárias para curar as feridas econômicas. Será um pouco na base daquele lusitano que precisava perder 20 quilos em uma semana. Não hesitou: cortou a própria perna.
Mas, se tudo der certo, a história terminará bem daqui a uns três ou quatro anos, quando, aliás, haverá nova eleição presidencial. Até lá, será uma questão de fé. A expiação de culpa está em pleno processo. As oferendas estão sendo depositadas no altar dos grandes capitais. Sacerdotes se revezam em Washington preparando, com requintes, a solenidade. Os brasileiros estão sendo convocados a fazer suas oferendas. Tem que dar certo. Desde que não ocorra outra crise nos países da Ásia ou na Rússia. Caso aconteça, começará tudo de novo. Com outros sacerdotes e a mesma liturgia.

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