'Culpa do PT'
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de abril de 2016
André Luiz Joanilho 
Sinto muito dizer isso, tenho muitos amigos do PT, mas a culpa é do Partido dos Trabalhadores. A partir do momento que se tornou governo e optou por uma política de inclusão de milhões de pessoas no sistema econômico, o partido se esqueceu de algo fundamental: de também incluir essas pessoas no sistema de classes.
Não tenho os números, mas creio que uma grande parcela da população brasileira, vive da economia informal. Este tipo de economia exclui as pessoas do sistema de classes que, teoricamente, acabam compondo uma fração de classe chamada de lumpemproletariado.
Trazer muitas dessas pessoas à economia formal, através de empregos registrados, não as transformou em classe operária. Foi a grande ilusão do PT. Seria preciso um trabalho cultural e social que só os sindicatos podem exercer. No entanto, estes continuaram na sua vidinha morosa, por meio da contribuição sindical obrigatória. Não é preciso ir atrás de novos filiados, basta ser o sindicato reconhecido pelo Estado para obter verbas imensas dos trabalhadores que nem sequer sabem onde estão.
Sem a sua inclusão, o lúmpen restará como tal, pensará como tal. Misturam Deus, família, individualismo extremo com ódio dos operários que lutam por direitos. Muitos vivem de negócios ilícitos e, frequentemente, ilegais. Vendem contrabando, mercadorias falsificadas, no entanto, não veem nessa atividade qualquer ilegalidade e, quando interpelados, afirmam constantemente que "não estão roubando ninguém".
Quando se veem incluídos na economia formal, não pensam que foi graças a uma política governamental, mas por "méritos pessoais". Acreditam que o governo quer apenas o dinheiro ganho através de impostos injustos e excessivos.
Esta situação os coloca distantes das representações proletárias, tidas como "comunistas", mas também se afastam das representações da pequena burguesia, esta considerada esnobe.
Por isso, se voltaram contra o governo que os promoveu socialmente. Mudaram de status econômico, mas não mudaram de status ideológico e nem de classe, isto é, não passaram a integrar o proletariado.
Preferem votar em membros oriundos também do lumpemproletariado que também cultivam ódios e discursos desconexos. Não conseguem pensar que a sociedade é feita de classes, pelo contrário, consideram essa ideia vinda de comunistas. Não criam associações políticas ou sindicatos que aglutinem os indivíduos, pois agem em instituições que justamente não têm essa finalidade.
Se o PT quiser recuperar o terreno perdido, terá de voltar a ser um partido dos trabalhadores e atuar nos sindicatos, trazendo os elementos saídos do lúmpen para a classe operária. E é fundamental que faça isso. O enfraquecimento da esquerda nesse processo todo pode trazer consequências graves para a população em geral, que se verá desprotegida na defesa de direitos mesmo de coisas simples como 13º salário, férias de 30 dias e 40 horas semanais de trabalho.
A tendência do capitalismo do século 21 é acabar com os direitos trabalhistas ou reduzi-los a níveis de do início do século 20: liberar horas de trabalho, pagar menos direitos, reduzir salários e "flexibilizar" contratos de trabalho. Algo que vem ocorrendo em escala alarmante nos EUA, na Alemanha, na Inglaterra, e no momento, avança com força na França.
Ficaremos à mercê de forças que desejam eliminar qualquer resistência. E isso não é apenas um problema de ser de direita ou de esquerda, é um problema de termos direito à vida fora do mundo do trabalho. Direito ao tempo: tempo da família, do lazer, da amizade, da religião, da política, de escutarmos uma música sem pensar em toda cadeia de comando da empresa, que nos impõe o trabalho como única condição de existência.
ANDRÉ LUIZ JOANILHO é professor de História Cultural da Universidade Estadual de Londrina e professor assistente do programa de pós-graduação em História da Universidade Federal do Paraná


