Cuidado com o Chávez

O povo não é bobo. Embora não tenham sido divulgadas pesquisas sobre a receptividade das propostas do senador Antonio Carlos Magalhães para combater a pobreza no Brasil, o resultado é visível a olho nu: pouca gente deu importância à jogada de marketing político do senador.
As pessoas estão cansadas e irritadas. Descrentes. Não há hoje, no Brasil, clima para jogadas de efeito, golpes de ‘‘mestre’’, demagogia explícita. O povo simplesmente não está acreditando nos políticos, pois as propostas que fazem carecem de credibilidade.
Há diversas interpretações sobre as motivações do senador. Dizem que é por ser ele candidato a presidente da República. Que foi para atingir a autoridade do presidente Fernando Henrique Cardoso, ou para esvaziar a reforma ministerial. Que teria sido uma represália à redução dos incentivos à Ford. Dizem também que o senador quer mudar sua imagem de defensor dos banqueiros e das multinacionais.
Tanto faz. O fato é que poucos acreditam que o senador esteja mesmo preocupado com os altíssimos níveis de pobreza e miséria no Brasil. Isso não combina com seu passado político e seu discurso ideológico, com a imagem pública que fixou. É claro que o senador pode estar mudando, ninguém pode ser criticado por evoluir. Para o povo, porém, isso agora não faz diferença.
Alega-se que o senador teve o mérito de colocar a questão da pobreza na agenda. Ora, a pobreza está na agenda cotidiana do povo e deveria estar na dos políticos e dos jornais, independentemente de Antonio Carlos Magalhães. Claro que outros políticos tiveram a oportunidade de aparecer no rastro do senador. E daí? A percepção do povo é de que nada mudou nem vai mudar no País por causa disso.
O senador apresentou propostas sobre como obter recursos para combater a pobreza e propôs mecanismos para administrar esses fundos. Mas o povo não é bobo, e sabe que o dinheiro já existe, o que não existe é vontade de aplicá-lo para combater a pobreza. E que esse dinheiro geralmente é desviado antes de chegar no fim da linha. Sabe que não adianta dizer que as empresas pagarão mais impostos, pois o secretário da Receita, Everardo Maciel, mostrou ao Congresso os altíssimos níveis de sonegação ‘‘legal’’ no País - e nada, absolutamente nada, foi feito pelos parlamentares para mudar esse quadro.
Cansado de ser enganado, o povo, que não é bobo, não está dando crédito a propostas mirabolantes. E desconfia das intenções dos políticos, mesmo quando são boas e eles são bem-intencionados e honestos.
Os políticos brasileiros, de modo geral, têm de recuperar a credibilidade, e não é com pirotecnias que isso acontecerá. É com seriedade. E, se querem preservar os esquemas de poder que tanto prezam, é bom fazer isso logo. Antes que um Hugo Chávez apareça por aqui - e faça o maior sucesso, como na Venezuela.
- HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília

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