Há quem esteja festejando, a essa altura, resultados de pesquisas de intenção de votos nos estados. Calma lá. Pesquisa, como se sabe, fotografa um momento e suas circunstâncias. Flagra pedaços de uma realidade, nunca a linha do horizonte. A experiência mostra que candidatos, com 2%, 4%, 5%, em fase de pré-campanha, ganharam eleições majoritárias. A história eleitoral também mostra que candidatos que saem com grande vantagem - 40%, 50% - tendem a cair. Importante é saber quem fez a pesquisa. É confiável? Para sustentar altos índices, os candidatos precisam ter muito fôlego. Como na guerra, se falta bala, no final, de nada adiantarão as vitórias nas primeiras batalhas.
Com exceção da campanha para a Prefeitura de São Paulo, em 92, que ganhou, Maluf sempre morreu antes de chegar à praia. É especialista em sair na frente e perder. Cada campanha, é claro, tem o seu clima, as suas verdades. Na campanha deste ano, a reeleição será um passaporte para os bons administradores continuarem no cargo. Eles contam com o handicap do poder da caneta. Mas não estão garantidos no cargo. Em alguns estados, estão atrás dos oposicionstas. Covas, em São Paulo, está bem atrás de Maluf, posição confortável, até certo ponto, em função da possibilidade do segundo turno. Os votos de esquerda entrariam na sua urna.
Em alguns estados, a posição de alguns governadores é praticamente imbatível, em função do reconhecimento à boa administração e da fragilidade das oposições. No Ceará, na Bahia e em Goiás, será quase impossível destronar os candidatos situacionistas Tasso Jereissati, Luis Eduardo Magalhães e Iris Resende. Estão com vantagens tão nítidas e os governos que representam estão sendo classificados como ótimos. Se a diferença entre candidatos não for muito significativa e se a polêmica sobre o conceito da administração for muito forte, não se deve apostar em ninguém.
O eleitor muda, sim, de opinião, de acordo com as circunstâncias, os programas apresentados e simpatia/antipatia dos candidatos. A pergunta mais frequente, a essa altura, é: como atingir em cheio as expectativas do eleitorado? Ora, falando para sua cabeça, seu bolso e seu coração. Trabalhar apenas com emoção ou só razão é um perigo. Aconselha-se mesclar as duas coisas. Sabemos que os problemas são mais ou menos os mesmos em todos os estados: precariedade no atendimento à saúde, falta de escolas, aumento indiscriminado da violência e falta de segurança, insuficiência dos transportes, desemprego em alta, falta de moradias, seca etc. Os candidatos, porém, tratam tais problemas de maneira cansativa, monótona, repetitiva, adjetivada. Parece que nem eles mesmos acreditam no que dizem. Tornam-se bonecos mecânicos.
Essa é a questão. Os programas carecem de criatividade, objetividade, simplicidade. O povo quer ouvir soluções interessantes e honestas para seus problemas rotineiros. Fica surdo para idéias extravagantes ou programas muito genéricos. Dai a importância das pesquisas qualitativas, que descobrem os mecanismos que atuam na consciência e no processo decisório. O discurso político é pleno de metáforas antigas e gastas. O cidadão quer sentir um gosto de verdade nas coisas que se dizem. Há candidatos que passam o tempo todo fulanizando a campanha: fulano é corrupto, sicrano é atrasado, beltrano é inteligente. O QUÊ, nessa campanha, é tão ou mais mais importante que o QUEM. Esse caldo é captado pelas pesquisas qualitativas. Saber degustá-lo (ler as pesquisas) é outro desafio.
- GAUDÊNCIO TORQUATO, jornalista, é professor titular da USP e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)

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